A Pessoa de Cristo: Pontos de Vista Históricos e Estado Pré-Encarnado

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A Pessoa de Cristo:

Pontos de Vista Históricos e Estado Pré-Encarnado

Podemos introduzir este estudo com o que disse Strong. Diz ele:

A redenção do gênero humano do pecado haveria de ser efetuada através de um Mediador que deveria reunir em Si mesmo tanto a natureza humana quanto a divina, para que pudesse reconciliar Deus ao homem, e o homem a Deus. Para facilitar a compreensão da doutrina bíblica sob consideração, será desejável apresentar de início um breve levantamento histórico das opiniões a respeito da Pessoa de Cristo. Op. cit., pág. 669.

1.  Opiniões Históricas

Um levantamento histórico das opiniões a respeito da Pessoa de Cristo mostra que tem havido uma grande diversidade de opiniões referentes à Pessoa de Cristo; apenas as mais notáveis podem ser mencionadas aqui.

1.1     Os Ebionitas.

Os ebionitas surgiram no começo do segundo século. O nome é derivado de uma palavra hebraica que significa “os pobres” ou “indigentes”. Eram judeus crentes que não conseguiam deixar as cerimônias mosaicas. Justino Mártir e Orígenes estabelecem a diferença entre o tipo mais manso e o mais rígido. O tipo mais manso, chamado Nazarenos, não denunciava os crentes gentios que rejeitavam a circuncisão e os Sábados judaicos. O tipo mais rígido era o dos sucessores dos judaizantes dos tempos de Paulo. Afirmavam que Jesus havia promulgado a lei de uma forma mais rígida, e ensinavam que quando fora batizado, Jesus havia sido agraciado com poderes sobrenaturais. Mas todos de comum acordo negavam a realidade da natureza divina de Cristo, considerando0 como mero homem, quer sobrenaturalmente, quer naturalmente concebido. A crença na divindade de Cristo lhes parecia incompatível com o monoteísmo.

1.2     Os Gnósticos.

Os gnósticos apareceram na mesma época que os ebionitas. Na verdade, gnosticismo incipiente é mencionado na epístola aos Colossenses, nas epístolas a Timóteo, na primeira epístola de João”o, na epístola de Judas e no Apocalipse. Havia pelo menos três tipos de gnósticos: Primeiro, os que negavam a realidade do corpo humano de Cristo. Eram chamados de Docetas (de dokeo, “parecer”). Em segundo lugar, os que afirmavam que Ele tinha um corpo real, mas negavam que fosse material; e, em terceiro lugar, os que afirmavam que Jesus e Cristo eram duas pessoas distintas, como os coríntios. Jesus era um homem comum, o filho de José e Maria; Cristo era um espírito ou poder que desceu sobre Jesus quando de Seu batismo. Na hora da Sua crucificação, o Cristo o abandonou, deixando o homem Jesus para sofrer sozinho. Os gnósticos negavam a realidade do corpo humano de Cristo devido a sua crença de que a matéria é inerentemente má. Hebreus 2:14 é um forte argumento contra o docetismo. “Como nada é tão essencial para que Cristo seja o Salvador dos homens quanto o fato de que Ele fosse verdadeiramente humano, todas estas teorias gnósticas foram rejeitadas como sendo heréticas”. Hodge, Op. cit., II, 400.

1.3     Os Arianos.

Os arianos foram os seguidores de Ário, um presbítero em Alexandria (nascido em 280?). Fisher relata brevemente a opinião ariana de Cristo. Ele diz:

Os arianos propunham a opinião de que no caso do Cristo preexistente, geração não deve ser diferenciada de criação. Ele é o primeiro dos seres criados, através de quem todas as outras coisas são feitas. Em antecipação da glória que haveria de ter no final, Ele é chamado de Logos, o Filho, o unigênito. Pode ser chamado de Deus, apesar de não ser Deus na realidade plena subentendida pelo termo. Ele principiou a ser, não falando estritamente do tempo, mas antes do tempo, já que o tempo principia com a criação; no entanto, Ele principiou a ser a partir do não existente através de um ato momentâneo da vontade de Deus. Antes disto, “Ele não era”. Geo. P. Fisher, History of Christian Doctrme, (História da Doutrina Cristã), pág 134.

Alexandre, bispo de Alexandria, em 321, convocou um sínodo, que o depôs do presbiterato e o excluiu da comunhão da igreja. Em 325, no Concilio de Nicéia, Ário e dois de seus amigos foram banidos para a Ilíria, e seu ensinamento foi condenado.

1.4     Os Apolinários.

Os Apolinários negavam a integridade da natureza humana de Cristo. Apolinário foi um notável bispo da Laodicéia que adotou a distinção platônica entre soma, psique e pneuma, como sendo três sujeitos ou princípios distintos na constituição do homem, admitia que Cristo tinha um corpo verdadeiro (soma) e alma animal (psuche), mas não um espírito racional, ou mente (pneuma ou nous). No Seu, o eterno Filho, ou Logos, tomava o lugar da inteligência humana. Os Apolinários foram levados a adotar esta teoria parcialmente pela dificuldade de conceberem como duas naturezas completas podem ser unidas em uma só vida e consciência. Se Cristo é Deus, ou o Logos divino, tem que ter uma inteligência infinita e uma vontade humana. Como pode então ser uma só pessoa? Isto é verdadeiramente incompreensível; mas não envolve nenhuma contradição. . Mas um segundo e forte apelo à adoção da teoria Apolinária era a doutrina aceita então por muitos, pelo menos, do pai platonizador, de que a razão no homem é parte do Logos divino ou da razão universal. Tanto assim que a diferença entre o homem e Deus, no que tange â inteligência humana, é meramente quantitativa. Se assim o for, é verdadeiramente difícil conceber como poderia haver em Cristo tanto uma parte do Logos quanto o Logos inteiro.   Hodge, Op. cit., II, 400 e segs.

O apolinarismo foi condenado pelo Concilio de Constantinopla, em 381.

1.5     Os Nestorianos

Os Nestorianos eram os seguidores de Nestor, bispo de Constantinopla. Nestor fazia objeção â frase: “Mãe de Deus”, usada pelos monges à Virgem Maria. Negava a verdadeira união das naturezas humana e divina em Cristo, afirmando ou dando a entender uma personalidade dupla em Cristo. O Logos habitava no homem Cristo Jesus, de maneira que a união entre as duas naturezas era algo parecida com a habitação do Espírito. Isto punha em perigo a verdadeira divindade de Cristo, pois Ele se distinguia dos outros homens em quem Deus habitava apenas pela plenitude de Sua presença e pelo controle absoluto que o divino em Cristo exercia sobre o humano. Girilo de Alexandria foi o principal oponente de Nestor, e obteve a condenação daquele no Sínodo de Éfeso, em 431 D.C. Foi finalmente deposto e banido.

1.6     Os Eutiquianos.

Os Eutiquianos eram os seguidores de Êutico, “um ciriliano tão zeloso que levou a deificação da humanidade de Cristo ao ponto de hesitar em admitir que seu corpo era da mesma natureza que o nosso”. Geo. P. Fisher, History of Christian Church (História da Igreja Cristã), pág. 134. Os Eutiquianos foram levados ao extremo oposto dos Nestorianos. Afirmavam que não havia duas, mas apenas uma natureza em Cristo. Tudo acerca de Cristo era divino, mesmo Seu corpo. O divino e o humano em Cristo estavam unidos em um só, que constituíam um tertium quid, ou terceira natureza. Os Eutiquianos eram freqüentemente chamados de monoísitas, porque virtualmente reduziram as duas naturezas de Cristo a uma só. O Eutiquismo foi condenado pelo Concilio de Calcedônia, em 451. Daí, a controvérsia monofisita deu uma reviravolta. Alguns seguidores desta opinião agora passaram a ensinar que Cristo só tinha uma vontade. “Se apenas uma, então, como afirmavam os ortodoxos, só podia haver uma natureza; pois a vontade é um dos elementos essenciais ou faculdades de uma natureza racional”. Hodge, Op. cit., II, 405. Em 681 D.C, o Concilio de Constantinopla, o sexto Concilio Ecumênico, condenou a doutrina monotelista, declarando que em Cristo há duas naturezas distintas, uma humana e uma divina, e que portanto existem necessariamente duas inteligências e duas vontades.

1.7     A Opinião Ortodoxa.  

A doutrina Ortodoxa foi promulgada no Concilio de Calcedônia, em 451. Conforme relatado por Strong, é como se segue:

Na pessoa única de Jesus Cristo há duas naturezas, a humana e a divina, cada qual em sua plenitude e integridade, e portanto estas duas naturezas estão organicamente e indissoluvelmente unidas, sendo isso, no entanto, feito de maneira tal que nenhuma terceira natureza seja formada como resultado. Resumindo, usando o dictum antiquado, a doutrina ortodoxa proíbenos de dividir a pessoa ou de confundir as naturezas.   Op. cit., pág. 673.

Parece que os reformadores distintamente rejeitaram todos os erros a respeito da pessoa de Cristo, condenados pela Igreja primitiva; os Arianos, os Ebionitas,  os Gnósticos, os Apolinários, os Nestorianos, os Eutiquianos e os Monotelitas.

Os reformadores ensinavam o que os primeiros seis concílios gerais haviam ensinado, e aquilo que a Igreja universal recebeu,  nem mais, nem menos     Hodee Op. cit, II, 407.  

Os luteranos se desviaram desta posição em um aspecto: Eles afirmavam que os atributos de uma natureza são comunicados á outra, isto é, a essência divina é comunicada à humana, interpenetrando a humana. Ibid.

Bruce diz que eles fizeram a Encarnação, em sua opinião, consistir em uma deificação da humanidade ao invés de uma descida de Deus até a humanidade e investiram a natureza de Cristo com todos os atributos divinos, até mesmo com aqueles metafísicos que são geralmente considerados e descritos como sendo incomunicáveis. A.B. Bruce The Humiliation of Christ (A Humilhação de Cristo) (New York: A C Armstrong & Son, 1872), pág. 3.                  

2.  O Cristo Pré-Encarnado

Aproximamo-nos do estudo da Pessoa de Cristo historicamente em ainda outro sentido, e antes de mais nada observamos algumas coisas que mostram Seu verdadeiro ser em Seu estado pré-encarnado. Algumas destas coisas já foram mencionadas sob o tópico da Trindade, mas vale a pena repeti-las, e outras deveriam ser adicionadas aqui.

No passado eterno, Cristo “estava com Deus” (João 1:1), na realidade Ele “era (en) Deus”. (Ibid). Isto foi “antes que houvesse mundo” (João 17:5). Ele é chamado de ho logos (João 1:1,14; Ap. 19:13). Alguém já disse: “A palavra é um meio de manifestação, um meio de comunicação, e um método de revelação”.

Harmonizando-se com esta interpretação, lemos em Hebreus (1:2) que Deus “nestes últimos dias nos falou pelo filho”.

É evidenciado pela estrutura de sua sentença que João concebe o Logos como sendo pessoal. Ele diz theos en ho logos, que significa que o Logos é Deus; mas não significa que Ele seja todo de Deus. Se tivesse dito: ho theos en ho logos, teria feito dos termos Deus e Logos termos conversíveis, e assim teria ensinado o sabelianismo.

Paulo o chama de “o primogênito de toda criação” (Cl. 1:15); mas o GreekEnglish Lexicon (Léxico GregoInglês) de Hickie (s.v. ktisis) afirma que o certo é acentuar prototokos na penúltima sílaba. W.J. Hickie, GreekEnglish Lexicon em Westcott e Hort, The New Testament in Greek (O Novo Testamento em Grego) (New York: The Macmillan Co., 1926). Isto faria com que a referência dissesse: “o Criador primitivo de todas as coisas criadas”. Lidell e Scott também fazem referência a isto. H.G. Lidell, Robert Scott, GreekEnglish Lexicon (New York: Harper and Brothers, 1896). Sabemos muito pouco a respeito da obra de Cristo durante este período, apenas que foi através dEle que o Pai regulou as eras (Hb. 1:2, Versão Americana Padrão, margem), e que Ele escolheu os crentes nEle antes da fundação do mundo (Ef. 1:4).

Lemos freqüentemente que Cristo teve uma parte na criação. Assim, lemos que “disse Deus” (Gn. 1:3,6, etc), sendo a referência a Cristo como sendo o Verbo. João declara que “todas as cousas foram feitas por intermédio dEle, e sem Ele nada do que foi feito se fez” (1:3; conf. v. 10). Paulo diz que todas as coisas são através dEle, e nós também por Ele (I Co. 8: 6); e que “nEle foram criadas todas as cousas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dEle e para Ele. Ele é antes de todas as cousas. Nele tudo subsiste”. (Cl. 1:16, 17). Estes versículos mostram Cristo como Criador, Preservador, e Fim da criação. Deve-se chamar particularmente a atenção para o fato de que quando Deus estava para criar o homem, houve primeiro um conselho na Divindade. Lemos que Ele disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn. 1:26). É também insinuado que Cristo teve parte na criação no nome plural dado a Deus em Gn. 1. Patterson acha que a esfera da tarefa especial de Cristo foi a organização, ou a formação de todas as coisas. Alex. Patterson, The Greater Life and Work of Christ (A Vida e Obra Maiores de Cristo) (New York: Fleming H. Revell Co., 1896), pág. 28. Provérbios (8:30) diz: “Então eu estava com ele e era seu arquiteto”.

Apesar da segunda pessoa da Trindade aparecer freqüentemente no Velho Testamento, ela nunca é mencionada como sendo Cristo. Ao invés disso, temos os nomes “Filho”, “Senhor” e “o Anjo do Senhor”. No Salmo 2:7, o Senhor o chama de Seu Filho. Mais freqüentemente, Ele é chamado de Senhor, como por exemplo: “Então fez o Senhor chover enxofre e fogo, da parte do Senhor, sobre Sodoma e Gomorra” (Gn. 19:24). Sem dúvida alguma, este é o mesmo que é chamado de Senhor em Gn. 18:13, 14, 17, 19, 20, 33; uma vez mais: “Porém da casa de Judáme compadecerei, e os salvarei pelo Senhor seu Deus” (Oséias 1: 7). No SI. 45:6, o Senhor O chama de Deus.  Mais freqüentemente, Ele aparece como “o Anjo do Senhor”.  Strong diz que o termo “parece, com pouco mais que uma única exceção, designar no Velho Testamento o Logos pré-encarnado, cuja manifestação em forma angélica ou humana prenunciava Sua vinda final em pessoa”. Op. cit., pág. 319. Esta única exceção, observa Strong, é Ageu 1:13. Ibid. Se pudermos assumir isto como sendo um fato, temos então diversas revelações interessantes de Cristo no Velho Testamento.

Como “Anjo do Senhor”, Ele apareceu a Hagar e lhe disse para voltar e se submeter a Sara, acrescentando que Ele haveria de multiplicar grandemente a sua posteridade (Gn. 16:714). Como tal, Ele apareceu a Abraão e reteve sua mão quando estava para sacrificar seu filho Isaque (Gn. 22:1118). Como “Anjo de Deus” Ele disse a Jacó que o faria prosperar apesar do tratamento injusto de Labão para com ele (Gn. 31:11,13). A Moisés, o “anjo do Senhor” apareceu em uma chama de fogo saindo do arbusto e lhe pediu que não chegasse perto, pois a terra era santa (Êx. 3:25).

Observe que Ele é chamado de Deus no v. 4. A seguir, lemos que “o Anjo de Deus” foi adiante de Israel quando o povo saiu do Egito (Êx. 14:19; cf. 23:20; 32:34). Paulo diz que a Pedra que os seguia era Cristo (I Co. 10:4). Quando Balaão veio para amaldiçoar a Israel, “o anjo do Senhor” o interceptou e o instruiu para que falasse apenas as coisas que Ele lhe dissesse (Nm. 22:2235). “O anjo do Senhor” veio a Gideão quando ele estava secretamente malhando trigo para escondê-lo dos midianitas, e lhe disse para que fosse livrar a Israel (Juízes 6:1123). A Manoá, este “anjo” apareceu e prometeu um filho, a quem sua esposa chamou de Sansão (Juízes 13:225). Quando Davi pecou ao levantar um senso do povo, Deus mandou “um anjo” com uma peste. Este anjo é chamado de “o anjo do Senhor” (I Cr. 21:127 esp. vs. 15,18). Quando Elias fugiu de Jezabel, “o anjo do Senhor” veio e o serviu embaixo do zimbro (I Reis 19:57). Sem dúvida, foi a mesma pessoa que lhe falou em Horebe (vs. 918). Nos dias em que Senaqueribe invadiu Judá, “o anjo do Senhor” interferiu a favor dos judeus aflitos e feriu de morte 185.000 assírios em uma só noite (II Reis 19:35). Em Zc. 1:11 “o anjo do Senhor” se coloca entre as murteiras e recebe os relatórios dos vários mensageiros. E em Zc. 3:1, Josué, o sumo sacerdote, é mostrado diante deste mesmo “anjo”. De todos estes versículos, aprendemos que Cristo teve uma existência pessoal distinta no período do Velho Testamento e que Ele teve repetidos e definidos contatos com a raça.

 

 

 

 

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