Curso Biblico de missões em Atos–aula 01- Entendendo atos numa perspectiva missionária

Aula 01 – Entendendo atos numa perspectiva missionária

1) Introdução

Atos dos Apóstolos é o primeiro livro da história da igreja crista. Registra a caminhada da igreja de Jerusalém a Roma. Este robusto livro não tem conclusão, porque a história da igreja continua. Cabe-nos dar continuidade a esta bendita empreitada de levar o evangelho de Cristo até aos confins da terra e fazer discípulos de todas as nações.

Atos desenvolve o esboço traçado por Jesus, o Senhor da Igreja, quando disse aos seus discípulos: E recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia, Samaria e até aos confins da terra (1.8).

Nos sete capítulos iniciais de Atos, vemos o avanço da igreja em Jerusalém e Judeia. No capítulo 8, o evangelho chega a Samaria. E a partir do capítulo 9, avança para os confins da terra.

A conversão de Saulo de Tarso, o maior perseguidor do cristianismo, e o seu comissionamento como o maior bandeirante da fé crista são marcos decisivos na história da igreja. Mais da metade do livro de Atos dedica-se a narrar suas viagens missionárias e descrever o avanço do cristianismo pelas diversas províncias do império romano.

Embora este livro seja chamado de Atos dos Apóstolos, Lucas enfatiza especialmente o ministério de Pedro e Paulo.

A primeira metade do livro destaca o ministério de Pedro, e a outra metade se debruça sobre o ministério de Paulo. Pedro endereçou seu ministério aos judeus e Paulo se dirigiu aos gentios. Embora os judaizantes tenham lutado com todas as forças para colocar um apóstolo contra o outro, insinuando que pregavam mensagens diferentes, ficou provado, tanto em Atos como nas epístolas, que ambos os apóstolos estavam em harmonia e que essa insinuação não passava de consumada mentira.

Estudar o livro de Atos é trazer à memória os gloriosos feitos de Deus. É alimentar nossa alma com a esperança de que o mesmo Deus que realizou coisas exponenciais no passado tem poder para realizar de novo em nossos dias. Estudar o livro de Atos é nutrir nosso coração com a perspectiva de novos avivamentos, que coloquem a igreja no trilho da verdade e firmem seus passos no caminho da santidade.

Um resumo do livro de Atos: Citando Leon Tucker, Myer Pearlman afirma que Atos pode ser sintetizado em três palavras: ascensão, descida e expansão. A ascensão de Cristo é seguida pela descida do Espírito, que por sua vez é seguida pela expansão do evan­gelho.

2) Destacamos três verdades importantes sobre a mensagem de Atos, à guisa de introdução:

Em primeiro lugar, a importância de sua mensagem.

John Stott diz que Atos é fundamental por causa de seus registros históricos e também por sua inspiração contemporânea.

Atos narra a história da igreja apostólica, desde os seus primeiros passos em Jerusalém até Roma, a cidade imperial. Faz uma estreita conexão entre o que Jesus começou a fazer e ensinar e o que ele continuou a fazer e ensinar por intermédio dos apóstolos.

O livro de Atos não coloca no centro do palco os apóstolos, mas o Senhor Jesus. E ele quem fala e faz. Os homens de Deus são apenas instrumentos; o agente é o próprio Filho de Deus. O poder que transforma vidas não vem do homem, mas de Deus; não vem da terra, mas do céu; não vem de dentro, mas de cima. Assim, o tema central de Atos é ainda Cristo, mas agora é o Cristo ressuscitado, vivo, que dá poder, e que desafia seus seguidores a irem por todo o mundo com a incomparável história do amor de Deus.

William MacDonald ressalta com razão que o livro de Atos é a única história da igreja inspirada; é também o primeiro livro da história da igreja apostólica. Atos não é apenas uma ponte que liga a vida de Cristo com o Cristo vivo ensinado nas epístolas; é também um elo de transição entre o judaísmo e o cristianismo, entre a lei e a graça.

Em segundo lugar, a necessidade de sua mensagem.

Atos é um manual sobre o crescimento saudável da igreja. Vivemos num tempo de busca desenfreada pelo crescimento numérico da igreja. No entanto, muitos se perdem nessa corrida. Buscam as fórmulas do pragmatismo em vez de recorrer aos princípios emanados do livro de Atos.

Temos visto que muitos caem nas armadilhas da numerolatria (idolatria dos números) e transigem com a verdade para alcançar resultados. Pregam o que o povo quer ouvir em vez de pregar o que povo precisa ouvir. Pregam para agradar os incrédulos em vez de levá-los ao arrependimento. Pregam prosperidade em vez de graça.

Por outro lado, o livro de Atos nos previne contra a numerofobia (medo dos números). Uma igreja saudável cresce naturalmente. Quando a igreja vive a doutrina apostólica. Deus acrescenta a ela, diariamente, os que vão sendo salvos.

O livro de Atos é o mais importante manual de crescimento da igreja. Se quisermos vê-la crescer, não devemos começar com os manuais modernos; devemos retornar ao livro de Atos e nele buscar os princípios que levaram a igreja de Jerusalém a Roma em poucas décadas.

John Stott está correto ao dizer que o livro de Atos trata de importantes questões para a igreja contemporânea:

Como o batismo do Espírito Santo, os dons espirituais, sinais e milagres carismáticos, a comunhão econômica da primeira comunidade crista em Jerusalém, a disciplina na igreja, a diversidade de ministérios, a conversão cristã, o preconceito racial, os princípios missionários, o preço da unidade cristã, as motivações e os métodos na evangelização, o chamado para sofrer por Cristo, a relação entre a igreja e o Estado, e a providência divina.

O livro Atos é também o maior livro de missões do mundo. É, de igual forma, o maior livro sobre organização e procedimentos eclesiásticos.

Em terceiro lugar, a urgência de sua mensagem.

Para alcançar esse alvo o crescimento, a igreja manteve, inseparavelmente, ortodoxia e piedade, doutrina e vida, palavra e poder.

Ortodoxia sem piedade gera racionalismo estéril. Piedade sem ortodoxia produz misticismo histérico. Ao longo da história, a igreja várias vezes caiu num extremo ou noutro.

Ainda hoje, vemos muitas igrejas zelosas da doutrina, mas áridas como um deserto; outras cheias de entusiasmo, mas vazias de doutrina.

Atos é um alerta para a necessidade urgente de uma nova reforma e de um profundo reavivamento. Não precisamos buscar as novidades do mercado da fé, mas nos voltarmos às origens do cristianismo apostólico.

3) O autor de Atos

O autor de Atos dos Apóstolos e do Evangelho nada diz a respeito de si mesmo, nem mesmo em sua dedicatória pessoal a Teófílo.

A tradição eclesiástica, porém, desde cedo não tem dúvidas de que o autor é Lucas.

Lucas era médico e historiador. A tradição liga-o à cidade de Antioquia da Síria, a terceira maior do mundo naquela época.

Único escritor gentio do Novo Testamento, Lucas foi testemunha ocular dos ocorridos nas viagens missionárias de Paulo, uma vez que acompanhou o apóstolo nessas peregrinações como seu companheiro e médico.

Sabemos muito pouco acerca de Lucas; só há três citações diretas a ele no Novo Testamento (Cl 4.14; 2Tm 4.11; Fm 24). Essas referências nos permitem afirmar duas coisas a seu respeito: Lucas era médico e cooperador de Paulo, aliás, um de seus amigos mais fiéis, pois estava com ele em sua segunda prisão em Roma.

Como já pontuamos. Atos é o segundo volume do livro escrito por Lucas. O volume inicial trata do que Jesus começou a fazer e a ensinar; nesse segundo volume, o que Jesus continuou a fazer e a ensinar por intermédio dos apóstolos, no poder do Espírito Santo. O livro de Atos não foi apenas um apêndice ou posfácio ao evangelho de Lucas, mas com ele formava uma obra única e contínua.”*

Atos precisa ser lido à luz de Lucas. Observe:

Leia-mos o prefacio do evangelho de Lucas: “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lc 1.1-4).

Este é o prefacio de Atos: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar” (At 1.1).

John Stott diz que, nessa importante declaração, Lucas esboça cinco estágios na composição do livro: a) os eventos históricos; b) as testemunhas oculares contemporâneas; c) a investigação pessoal de Lucas; d) a escrita; e) a audiência a quem o texto se destinava, incluindo Teófilo, a quem Lucas se dirige.

4) Os propósitos do livro de Atos

Lucas, inspirado pelo Espírito de Deus, escreveu o livro de Atos com vários propósitos em mente. Elencamos alguns deles a seguir.

Em primeiro lugar, mostrar a legitimidade do cristianismo diante das autoridades romanas.

O livro de Atos não é apenas a história do avanço dos cristãos, mas, sobretudo, uma defesa do cristianismo. Werner de Boor diz com todas as letras que o alvo de Atos de Apóstolos é a defesa do cristianismo perante o Estado romano.

O propósito de Lucas é defender a fé cristã diante dos seus opositores, mostrando que a religião do Caminho é legítima, legal e salutar para o povo.

Ao longo do livro, Lucas reúne vários relatos nos quais as autoridades romanas reconhecem que não têm nenhuma acusação formal contra os cristãos.

Como um diplomata, Lucas reuniu provas para mostrar que o cristianismo era inofensivo (porque alguns oficiais romanos chegaram a adotá-lo pessoalmente), inocente (porque os juizes romanos não conseguiram encontrar nenhuma base para condená-lo) e legal (pois ele era o cumprimento verdadeiro do judaísmo).

Era um claro propósito de Lucas recomendar o cristianismo ao governo romano. Em Atos 13.12 Sérgio Paulo, o governador de Chipre, converte-se ao cristianismo. Em Atos 18.12 Galio é absolutamente imparcial em Corinto. Em Atos 16.35-39 os magistrados, ao reconhecerem seu erro, pedem desculpas publicamente a Paulo. Em Atos 19.31 as autoridades da Ásia demonstram preocupação de que Paulo não sofresse nenhum dano. Lucas destaca que os cristãos são cidadãos bons e fiéis: em Atos 18.14 Gálio declara que não existe agravo nem crime a questionar; em Atos 19.37 o secretário de Éfeso dá um bom testemunho dos cristãos; em Atos 23.29 Cláudio Lísias cuida para não dizer nada contra Paulo; em Atos 25.25 Festo declara que Paulo nada fez que mereça a morte; e nesse mesmo capítulo Festo e Agripa concordam que poderiam ter deixado Paulo em liberdade se ele não tivesse apelado a César.

Em segundo lugar, mostrar a expansão da igreja de Jerusalém a Roma apesar das perseguições.

Lucas é enfático em mostrar as variadas formas de perseguição que os apóstolos e toda a igreja sofreram na marcha do cristianismo de Jerusalém a Roma.

Perseguições internas e externas, físicas e psicológicas, políticas e religiosas.

O próprio apóstolo Paulo afirma: …através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus Atos 14:22.

A perseguição começa com a zombaria dirigida aos apóstolos no dia de Pentecostes, e continua com a tentativa do Sinédrio de calar os apóstolos, mandando prendê-los e açoitá-los. Chega rapidamente ao auge na morte de Estêvão, passando também pela morte de Tiago. Paulo foi apedrejado em Listra, açoitado em Filipos, escorraçado da Tessalônica, enxotado de Bereia chamado de tagarela em Atenas e de impostor em Corinto. Em Éfeso enfrentou feras, foi preso em Jerusalém, acusado em Cesareia e novamente preso em Roma. Longe, porém, de recuar diante das perseguições, a igreja caminhou com ainda mais ousadia e desassombro para obter resultados alvissareiros.

Em terceiro lugar, mostrar o espantoso crescimento da igreja apesar das limitações humanas.

A igreja apostólica estava desprovida de recursos financeiros. Os apóstolos não tinham prata nem ouro. E, mais, eram homens iletrados. Não tinham influência política, e a maioria dos membros da nova igreja era composta de escravos. Apesar dessas limitações humanas, a igreja encheu o império romano com a doutrina de Cristo e fincou a bandeira do evangelho no centro da cidade imperial.

A mensagem de Atos é vital para a igreja contemporânea porque nos mostra o caminho de Deus para o crescimento da igreja, a despeito de todas as suas limitações. A igreja cresce pela oração e pela Palavra, no poder e na virtude do Espírito Santo, por intermédio de cristãos fiéis e ousados.

Em quarto lugar, mostrar a oração e a Palavra como os dois vetores do crescimento da igreja.

Os apóstolos entenderam que não poderiam abandonar a oração e o ministério da Palavra para servirem às mesas.

A oração e a Palavra foram os grandes vetores do crescimento da igreja. Ainda hoje esses dois instrumentos são os principais fatores do crescimento saudável da igreja. Deus não unge métodos; unge homens e mulheres de oração. Sem oração não há pregação de poder. Pregação é lógica em fogo. Pregação é demonstração de poder. Não podemos separar pregação de oração. Só podemos levantar-nos diante dos homens se primeiro nos prostrarmos diante de Deus.

Em quinto lugar, mostrar a obra do Espírito Santo na expansão da igreja.

A igreja apostólica avançou de Jerusalém a Roma no poder do Espírito Santo.

Foi o Espírito quem capacitou a igreja para viver e pregar.

Foi o Espírito Santo quem liderou a igreja em seu extraordinário crescimento espiritual e numérico.

Nas palavras de Everett Harrison, o Espírito Santo é a fonte da pregação eficaz (4.8), dos poderes miraculosos (13.9-11), da sabedoria nas deliberações da igreja (15.28), da autoridade administrativa (5.3; 13.2) e da orientação em geral (10.19; 16.6-10).

A ação do Espírito Santo é tão marcante em Atos que este livro tem sido descrito às vezes como o livro dos “Atos do Espírito Santo”.

Em sexto lugar, mostrar o triunfo do reino de Deus sobre o reino das trevas.

A igreja apostólica cresceu espantosamente e desbastou as trevas do paganismo.

A igreja triunfou sobre o legalismo fariseu e o liberalismo saduceu em Jerusalém.

Triunfou, outrossim, sobre o sincretismo samaritano.

Triunfou, de igual forma, sobre o paganismo e a idolatria nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor. Triunfou, finalmente, sobre o culto ao imperador.

A igreja apostólica cresceu a despeito das mais variadas e perversas perseguições. O sangue dos mártires tornou-se a sementeira do evangelho.

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