PARTE 01 DO CURSO BIBLICO A IGREJA BETEL–TEMA: CRISTOLOGIA

Atenção: Para copiar a apostila completa deste curso que esta sendo ministrado na igreja pelo Pr Josias Clique neste link:
 
 
 

INSTITUTO BÍBLICO BETEL BRASILEIRO

A DOUTRINA DA PESSOA DE CRISTO

PROFESSOR: PR. JOSIAS MOURA DE MENEZES

Site: http://www.josiasmoura.wordpress.com

A PESSOA DE CRISTO

Como Jesus pode ser plenamente Deus e plenamente homem, sendo, todavia, uma só pessoa?

1. Explicação e base bíblica

Podemos resumir o ensino bíblico a respeito da pessoa de Cristo da seguinte maneira: Jesus Cristo era plenamente Deus e plenamente homem em uma só pessoa, e assim será para sempre.

O material escriturístico que dá suporte a essa definição é muito extenso. Discutiremos primeiro a humanidade de Cristo e depois sua divindade, e então tentaremos mostrar como a divindade e a humanidade de Jesus estão unidas em uma só pessoa.

2. A humanidade de Cristo

1. Nascimento virginal

Quando falamos da humanidade de Cristo, convém começar pela consideração sobre o nascimento virginal de Cristo. A Escritura assevera claramente que Jesus foi concebido no ventre de sua mãe, Maria, por uma obra miraculosa do Espírito Santo, sem pai humano.

"Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo" (Mt 1.18). Logo em seguida o anjo do Senhor disse a José, que era comprometido com Maria: "José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo" (Mt 1.20). Então, lemos: "Ao acordar, José fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua esposa. Mas não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus" (Mt 1.24,25).

O mesmo fato é afirmado no evangelho de Lucas, onde lemos a respeito da aparição do anjo Gabriel a Maria. Após o anjo ter-lhe dito que ela teria um filho, Maria disse: "Como acontecerá isso, se sou virgem?" O anjo respondeu: "O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Assim, aquele que há de nascer será chamado Santo, Filho de Deus" (Lc 1.34,35; cf. 3.23).

Só essa afirmação da Escritura sobre o nascimento virginal de Cristo já nos dá a autorização suficiente para abraçar essa doutrina.

3. Contudo, há também algumas implicações doutrinárias cruciais do nascimento virginal que ilustram sua importância. Podemos vê-las ao menos em três áreas:

3.1 Ela mostra que em última instância a salvação vem do Senhor.

O nascimento virginal de Cristo é o lembrete inconfundível do fato de que a salvação não pode nunca vir por intermédio do esforço humano, mas deve ser obra sobrenatural de Deus. Esse fato estava evidente já no começo da vida de Jesus: "Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei […] para que recebêssemos a adoção de filhos" (Gl 4.4,5).

3.2 O nascimento virginal tornou possível a união da plena divindade com a plena humanidade em uma só pessoa.

Esse foi o meio que Deus usou para enviar seu Filho (Jo 3.16; Gl 4.4) ao mundo como homem.

Se pensarmos por um momento em outros modos possíveis pelos quais Cristo poderia ter vindo ao mundo, nenhum deles seria claramente a união entre divindade e humanidade em uma pessoa.

Provavelmente teria sido possível Deus criar Jesus como ser humano completo no céu e enviá-lo do céu para a terra sem o concurso de qualquer progenitor humano. Mas assim seria muito difícil vermos como Jesus poderia ser plenamente humano como nós somos.

Por outro lado, provavelmente também teria sido possível Deus enviar Jesus ao mundo com dois pais humanos, tanto o pai como a mãe, e fazer unir miraculosamente sua plena natureza divina à natureza humana em algum ponto, bem no começo de sua vida. Mas assim seria difícil entendermos como Jesus poderia ser plenamente Deus, já que sua origem seria igual à nossa em cada detalhe.

Quando pensamos nessas duas outras possibilidades, isso nos ajuda a entender como Deus, em sua sabedoria, ordenou a combinação da influência humana e divina no nascimento de Cristo, de forma que sua plena humanidade seria evidente a partir de seu nascimento humano comum procedente de uma mãe humana, e a sua plena divindade seria evidente a partir do fato de sua concepção no ventre de Maria pela obra poderosa do Espírito Santo.

3.3 O nascimento virginal também torna possível a verdadeira humanidade de Cristo sem o pecado herdado.

Como já observamos no capítulo 14, todos os seres humanos herdaram do primeiro pai, Adão, a culpa legal e a corrupção da natureza moral. Mas o fato de que Jesus não teve um pai humano significa que a linha de descendência de Adão é parcialmente interrompida.

Jesus não descendeu de Adão exatamente da mesma forma que quaisquer outros seres humanos descenderam de Adão. Isso nos ajuda a entender por que a culpa legal e a corrupção moral que pertencem a todos os outros seres humanos não pertencem a Cristo.

Mas por que Jesus não herdou a natureza pecaminosa de Maria?

A resposta católica. A Igreja Católica Romana responde a essa pergunta dizendo que a própria Maria foi livre do pecado, mas a Escritura em nenhum lugar ensina tal doutrina, que aliás não resolveria o problema de forma alguma (pois por que, então, Maria não teria herdado o pecado de sua mãe?).

Outra resposta para esta questão. Uma solução melhor é dizer que a obra do Espírito Santo em Maria deve ter evitado não somente a transmissão do pecado de José (por Jesus não ter tido um pai humano), mas também, de modo miraculoso, a transmissão do pecado de Maria: "0 Espírito Santo virá sobre você […] Assim, aquele que há de nascer será chamado Santo, Filho de Deus" (Lc 1.35).1

4. Fraqueza e limitações humanas.

4.1 Jesus possuía corpo humano.

O fato de Jesus possuir um corpo humano exatamente como o nosso corpo é claramente visto em muitas passagens da Escritura.

Ele nasceu exatamente como todos os bebês humanos nascem (Lc 2.7). Cresceu da infância até a maturidade exatamente como as outras crianças crescem: "0 menino crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a gra-ça de Deus estava sobre ele" (Lc 2.40). Além disso, Lucas nos diz que "Jesus ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens" (Lc 2.52).

Jesus se cansava exatamente como nós nos cansamos, pois lemos que, junto a fonte de Jacó, em Samaria, "Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. Isso se deu por volta do meio-dia" (Jo 4.6).

Ele teve sede, pois, quando estava na cruz, disse: "Tenho sede" (Jo 19.28). Após ter jejuado por quarenta dias no deserto, lemos que Jesus "teve fome" (Mt 4.2).

Em certas ocasiões esteve fisicamente fraco, pois durante sua tentação no deserto jejuou quarenta dias (situação em que a força física de um ser humano se esvai quase totalmente, além do que pode ocorrer grande dano físico se o jejum continua). Naquela ocasião os "anjos vieram e o serviram" (Mt 4.11), certamente para cuidar dele e proporcionar alimento até que recobrasse suas forças para sair do deserto.

O ponto máximo das limitações de Jesus em termos de seu corpo humano foi visto quando ele morreu na cruz (Lc 23.46). Seu corpo humano cessou de ter vida e de funcionar, exatamente como acontece com o corpo de qualquer pessoa quando morre.

Jesus também ressuscitou dos mortos fisicamente, em corpo, embora tal corpo tenha se tornado perfeito e não mais fosse sujeito a fraquezas, doença ou morte.

Ele demonstra repetidamente aos seus discípulos que, de fato, possuía um corpo físico real dizendo: "Vejam as minhas mãos e os meus pés. Sou eu mesmo! Toquem-me e vejam; um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho" (Lc 24.39). Ele lhes estava mostrando e ensinando que era "carne e ossos" e não meramente um "espírito", sem corpo. Outra evidência desse fato é que "deram-lhe um pedaço de peixe assado, e ele o comeu na presença deles" (Lc 24.42,43; cf. v. 30; Jo 20.17,20,27; 21.9,13).

Com esse mesmo corpo humano (embora ressurreto que foi tornado perfeito), Jesus também subiu ao céu. Ele disse antes de subir:"… agora deixo o mundo e volto para o Pai" (Jo 16.28; cf. 17.11). O modo pelo qual Jesus subiu para o céu foi estabelecido para demonstrar a continuidade entre sua existência com corpo físico aqui sobre a terra e sua existência contínua com esse corpo no céu.

Exatamente poucos versículos após Jesus ter-lhes dito: "um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho" (Lc 24.39), lemos no evangelho de Lucas que Jesus, "tendo-os levado até as proximidades de Betânia […] ergueu as mãos e os abençoou. Estando ainda a abençoá-los, ele os deixou e foi elevado ao céu" (Lc 24.50,51). Semelhantemente, lemos em Atos que Jesus "foi elevado às alturas enquanto eles olhavam, e uma nuvem o encobriu da vista deles" (At 1.9).

Todos esses versículos vistos juntos mostram que, no que diz respeito ao corpo humano de Jesus, ele era igual ao nosso em cada aspecto antes da ressurreição e após a ressurreição era ainda um corpo humano com "carne e ossos", mas tornado perfeito, a espécie de corpo que teremos quando Cristo retornar e nós igualmente ressuscitarmos dos mortos.

4.2 Jesus possuía mente humana.

O fato de que Jesus "ia crescendo em sabedoria” (Lc 2.52) significa que ele passou pelo processo de aprendizado exatamente como todas as outras crianças passam — aprendeu a comer, a andar, a ler e a escrever, e a ser obediente aos seus pais (v. Hb 5.8).

Esse processo regular de aprendizado fazia parte da genuína humanidade de Cristo.

Também vemos que Jesus tinha uma mente humana igual à nossa quando ele fala sobre o dia do seu retorno à terra: "Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o Pai" (Mc 13.32).

4.3 Jesus possuía alma e emoções humanas.

Vemos diversas indicações de que Jesus possuía uma alma (ou espírito) humana.

Exatamente antes de sua crucificação, Jesus disse: "Agora, está angustiada a minha alma" (RA, JO 12.27). João escreve um pouco mais tarde, dizendo que "Jesus perturbou-se em espírito" (Jo 13.21).

Em ambos os versículos as palavras angústia e perturbação são traduções do termo grego tarassõ, palavra bastante usada para referir-se a pessoas que estão ansiosas ou se sentem repentinamente confrontadas pelo perigo.

Além disso, antes de sua crucificação, à medida que percebia o sofrimento que haveria de enfrentar, Jesus disse: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal" (Mt 26.38). Tão grande era a tristeza que ele sentia que parecia estar tirando a sua vida.

Jesus experimentou grande variedade de emoções humanas. Ele "admirou-se" da fé do centurião (Mt 8.10). Chorou de tristeza na morte de Lázaro (Jo 11.35). Orou com o coração cheio de emoção, pois "durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão" (Hb 5.7).

O autor de Hebreus também nos diz o seguinte: "Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu; e, uma vez aperfeiçoado, tornou-se a fonte da salvação eterna para todos os que lhe obedecem" (Hb 5.8,9).

Todavia, se Jesus nunca pecou, como poderia "aprender a obedecer"?

Certamente, enquanto crescia para a maturidade, Jesus, igual a todas as outras crianças, foi capaz de aceitar mais e mais responsabilidade. Quanto mais ele crescia, mais exigências seus pais colocavam sobre os seus ombros em termos de obediência, e mais tarefas difíceis seu Pai celestial lhe atribuía para que desempenhasse segundo a força de sua natureza humana.

Quanto mais uma tarefa se tornava difícil e quanto mais as circunstâncias se tornavam difíceis, mesmo quando envolviam algum sofrimento (como Hb 5.8 especifica), mais aumentava a capacidade moral de Jesus, como homem, para obedecer. Poderíamos dizer que a"espinha dorsal do comportamento moral" de Jesus era fortalecida à medida que o exercício se tornava mais difícil. Todavia, em tudo isso ele nunca pecou.

5. Impecabilidade

Embora o NT afirme com clareza que Jesus era plenamente homem exatamente como nós somos, também afirma que ele era diferente em um aspecto importante: Jesus era sem pecado, e nunca pecou durante toda a sua vida.

Alguns têm contraposto que, se Jesus não pecou, então não era verdadeiramente humano, pois todos os seres humanos pecam. Mas essa objeção simplesmente falha em perceber que os seres humanos estão agora em uma situação anormal. Deus não nos criou com pecaminosidade, mas santos e retos. Adão e Eva no Jardim do Éden antes de pecarem eram verdadeiramente seres humanos, e nós agora, embora humanos, não correspondemos ao padrão que Deus pretende que tenhamos quando a nossa humanidade sem pecado for plenamente restaurada.

A verdade de que Jesus não pecou é ensinada muitas vezes no NT. Vemos que Satanás foi incapaz de persuadir Jesus a pecar, após quarenta dias de tentação: "Tendo terminado todas essas tentações, o Diabo o deixou até ocasião oportuna" (Lc 4.13).

Não vemos também nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) qualquer evidência de algo errado feito por Jesus. Aos judeus que se lhe opunham, Jesus perguntou: "Qual de vocês pode me acusar de algum pecado?" (Jo 8.46), e não obteve resposta alguma.

As afirmações a respeito da impecabilidade de Jesus são mais explícitas no evangelho de João. Jesus fez a estonteante proclamação: "Eu sou a luz do mundo" (Jo 8.12). Se entendermos que a luz representa tanto a veracidade como a pureza moral, então Jesus está afirmando categoricamente aqui ser a fonte da verdade e a fonte da pureza moral e da santidade no mundo — uma afirmação assombrosa que poderia somente ser feita por alguém que era livre do pecado.

Além disso, com respeito à obediência ao seu Pai no céu, ele disse: "pois sempre faço o que lhe agrada" (Jo 8.29; o tempo presente do verbo dá o sentido de atividade contínua, "eu sempre estou fazendo o que lhe é agradável").

No final de sua vida, Jesus foi capaz de dizer:"… tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço" (Jo 15.10).

É significativo que quando Jesus foi posto no julgamento perante Pilatos, a despeito da acusação dos judeus, Pilatos pode somente concluir: "Não acho nele motivo algum de acusação" (Jo 18.38).

Quando Paulo fala de Jesus vindo para viver como um homem, ele tomou o cuidado de não dizer que Jesus se tornou um "…homem pecador", mas antes diz que Deus enviou o seu próprio Filho "…à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado…" (Rm 8.3).

E ele se refere a Jesus como "…aquele que não tinha pecado…" (2Co 5.21).

O autor de Hebreus afirma que Jesus foi tentado mas ao mesmo tempo insiste que ele não pecou: Jesus é aquele que foi "passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado" (Hb 4.15). Ele é um sumo sacerdote que é "santo, inculpável, puro, separado dos pecadores, exaltado acima dos céus" (Hb 7.26). Pedro fala de Jesus como "um cordeiro sem defeito e sem defeito" (lPe 1.19), usando uma figura do AT para afirmar que ele era livre de qualquer corrupção moral. Pedro afirma diretamente que ele "não cometeu pecado algum, e nenhum engano foi encontrado em sua boca" (lPe 2.22). Quando Jesus morreu, foi "o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus" (lPe 3.18). João, em sua primeira carta, chama Jesus Cristo de "o Justo" (ljo 2.1) e diz que "nele não há pecado" (ljo 3.5). É difícil negar, então, que a impecabilidade de Cristo seja ensinada claramente nas seções mais importantes do NT. Ele era verdadeiramente homem, todavia sem pecado.

O fato de que Jesus passar "por todo tipo de tentação" (Hb 4.15) tem grande significação para a nossa vida. Não importa quão difícil seja para compreender isso, a Escritura afirma que nessas tentações Jesus adquiriu uma capacidade de entender-nos e ajudar-nos em nossas tentações. "Porque, tendo em vista o que ele mesmo sofreu quando tentado, ele é capaz de socorrer aqueles que também estão sendo tentados" (Hb 2.18). O autor continua a conectar a capacidade de Jesus de simpatizar-se com as nossas fraquezas ao fato de que ele foi tentado como nós o somos: "pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado. Assim, aproximemo-nos do trono da graça com toda a confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça que nos ajude no momento da necessidade" (Hb 4.15,16).

Isso tem implicações práticas para nós: em cada situação em que estamos lutando com a tentação, devemos refletir sobre a vida de Cristo e perguntar se não houve situações semelhantes que ele enfrentou. Geralmente, após refletirmos por um pouco, seremos capazes de pensar a respeito de algumas circunstâncias na vida de Cristo nas quais ele enfrentou tentações que, embora não tenham sido iguais em cada detalhe, foram muito similares às situações que enfrentamos cada dia.

6. Jesus poderia ter pecado?

A pergunta por vezes proposta é: "Era possível Cristo ter pecado?". Algumas pessoas argumentam pela impecabilidade de Cristo, com a palavra impecabilidade significando "incapacidade de pecar". Outros contrapõem que, se Jesus não fosse capaz de pecar, suas tentações não poderiam ter sido reais, pois como pode a tentação ser real se a pessoa que é tentada não possui a capacidade de pecar?

Para responder a essa pergunta, devemos distinguir o que a Escritura claramente afirma, de um lado, e, de outro, o que se relaciona mais com especulação de nossa parte. 1) A Escritura afirma claramente que Cristo na verdade nunca pecou (v. acima). Não deveria haver dúvida alguma em nossa mente sobre esse fato. 2) A Escritura também afirma claramente que Jesus foi tentado e que essas tentações foram tentações reais (Lc 4.2). Se cremos na Escritura, devemos insistir em que Cristo, "como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado" (Hb 4.15). 3) Também devemos afirmar com a Escritura que "Deus não pode ser tentado pelo mal" (Tg 1.13). Mas aqui a questão se torna difícil: Se Jesus era plenamente Deus assim como plenamente homem (e vamos argumentar a seguir que a Escritura clara e repetidamente ensina isso), não devemos então afirmar que (em algum sentido) Jesus também "não poderia ser tentado pelo mal"?

Essas afirmações explícitas da Escritura apresentam-nos um dilema semelhante a outros dilemas doutrinários em que a Escritura parece ensinar coisas que são, se não direta-mente contraditórias, ao menos muito difíceis de se encaixar em nosso entendimento. Nesse exemplo, realmente não temos uma contradição. A Escritura não nos diz que "Jesus foi tentado" e que "Jesus não foi tentado" (a contradição seria se "Jesus" e "tentado" fossem usados exatamente no mesmo sentido em ambas as frases). A Bíblia nos diz que "Jesus foi tentado", que "era plenamente homem", que "era plenamente Deus" e que "Deus não pode ser tentado". Essa combinação de ensinos da Escritura deixa aberta a possibilidade de que, à medida que entendemos o modo pelo qual a natureza humana e a natureza divina de Jesus trabalham juntas, podemos entender um pouco mais sobre o modo pelo qual ele pôde ser tentado em um sentido e, todavia, em outro sentido, não pôde ser tentado. (Essa possibilidade será discutida mais adiante.)

Neste momento, então, vamos além das afirmações claras da Escritura e tentamos sugerir uma solução para o problema se Cristo poderia ter pecado. Mas é importante reconhecer que a solução a seguir está mais ligada a métodos de combinação de vários ensinos bíblicos e não é apoiada diretamente por afirmações explícitas da Escritura. Com isso em mente, é adequado dizer o seguinte:4 1) Se a natureza humana de Jesus tivesse existido por si mesma, independentemente de sua natureza divina, então ela teria sido uma natureza humana exatamente igual àquela que Deus deu a Adão e Eva. Ela estaria livre de pecar, mas, apesar disso, seria capaz de pecar. 2) Mas a natureza humana de Jesus nunca existiu separadamente da união com a natureza divina. Desde o momento de sua concepção, ele existiu como verdadeiramente Deus assim como verdadeiramente homem. Tanto sua natureza humana quanto sua natureza divina estavam unidas em uma pessoa. 3) Embora houvesse algumas coisas (como sentir fome, sede ou fraqueza) que Jesus experimentou somente em sua natureza humana, coisas que não foram experimentadas em sua natureza divina (v. a seguir), contudo pecar teria sido um ato moral que certamente envolveria a pessoa total de Cristo. Portanto, se ele houvesse pecado, teria havido o envolvimento das duas naturezas, divina e humana. 4) Mas se Jesus como pessoa houvesse pecado, envolvendo ambas as naturezas em pecado, então o próprio Deus teria pecado e teria cessado de ser Deus. Todavia, isso é claramente impossível por causa da santidade infinita da natureza de Deus. 5) Portanto, parece que, se perguntarmos sobre a real possibilidade de Jesus ter pecado, devemos concluir que não seria possível. A união de suas naturezas, divina e humana, em uma pessoa impediu que isso acontecesse.

Mas a questão ainda permanece: "Como poderiam então as tentações de Jesus ter sido reais?". 0 exemplo da tentação de transformar as pedras e pães é útil nesse caso. Jesus tinha a capacidade, em virtude de sua natureza divina, de realizar tal milagre, mas, se ele o tivesse feito, não mais teria sido obediente a Deus Pai unicamente na força de sua natureza humana, mas teria falhado no teste em que Adão também falhou e não teria obtido a salvação para nós. Entretanto, Jesus recusou-se a contar com sua natureza divina para tornar a obediência mais fácil para ele. De igual modo, parece apropriado concluir que Jesus enfrentou cada tentação para pecar não por seu poder divino, mas unicamente na força de sua natureza humana (embora, naturalmente, seu lado humano não estivesse sozinho, porque Jesus, exercendo a espécie de fé que os seres humanos devem exercer, era perfeitamente dependente de Deus Pai e do Espírito Santo em cada momento). A força moral de sua natureza divina estava lá como uma espécie de "barreira" que evitava que ele pecasse (e, portanto, podemos dizer que não era possível ele pecar), mas ele não contou com a força de sua natureza divina para tornar mais fácil o processo de enfrentar as tentações, e sua recusa em transformar as pedras em pães no começo do seu ministério é uma indicação clara disso.

6.1 As tentações foram então reais?

Muitos teólogos têm salientado que somente quem resiste vitoriosamente à tentação até o fim sente plenamente a força dessa tentação. Exatamente como um halterofilista campeão que levanta sobre a cabeça o haltere mais pesado no campeonato consegue sentir a força dele mais plenamente que quem tenta levantá-lo e não consegue, assim qualquer cristão que enfrentou vitoriosamente uma tentação até o fim sabe que isso é muito mais difícil que simplesmente desistir de uma vez. Foi isso que aconteceu com Jesus: cada tentação que ele enfrentou, permaneceu firme até o fim e triunfou sobre ela. As tentações foram reais, muito embora ele não tenha cedido a elas — de fato, elas foram muitíssimo reais porque ele não cedeu a elas.

6 thoughts on “PARTE 01 DO CURSO BIBLICO A IGREJA BETEL–TEMA: CRISTOLOGIA

  1. Adorei o estudo bem explicado e direto! Muito obrigado por compartilhar estes ensinamentos conosco.

    Jane Saldanha Há um tempo para todas as coisas. Debaixo do céu.

    >

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  2. Paz pastor! preciso dar algumas respostas para um jovem o sr pode me ajudar? segue; *Desculpe, voc pode me explicar novamente o por qu de Deus ser onisciente e para ele ainda h o livre arbtrio? Porque eu imagino que ao nos enviar para a terra como seu filho, ele j sabe qual ser nosso destino, e o livre arbtrio dessa forma se torna uma iluso se olhar do ponto de vista que Deus, onisciente, j sabe do nosso futuro.

    *No s o Cristianismo tem milagres, outras religies tambm, por que apenas a nossa seria a correta? se nascssemos na Turquia seriamos Islmicos, nossos pais seriam Islmicos e nossa cultura Islmica, e veja bem, aps Genesis, foi que surgiu as trs religies Abraamicas, pois, de mesma origem, isso eu diria que se relaciona a um contexto histrico, enfim, por que consideramos apenas a nossa religio a correta e as outras erradas? O que achamos da religio deles, eles tambm devem pensar da nossa.

    *Atualmente ainda existe tribos isoladas no Brasil que desconhecem a cultura do homem branco, portanto desconhecem de Jesus Cristo. Esses sero condenados ou salvos pela sua ignorncia? J que no aceitaro Jesus como seu salvador e inevitavelmente praticam atos que no consentimos para uma vida sagrada.

    *Por que a Igreja no prega que podemos pagar o dizimo com a dcima parte da produo que foi nos concedida pelo senhor? Levitico 27:30?

    *O cdigo de conduta Romana muito similar as das escrituras sagradas. Ouvi dizer que a cultura greco-romana foi includa a coleo bblica. Um exemplo cito referente a submisso da mulher. Portanto seria leis no provenientes de Deus e sim da cultura da poca e do local.

    Me desculpa se eu pareo ctico, mas que eu gostaria de sanar minhas duvidas que me perturbam e fazem eu duvidar da existncia de Deus. Parece que quanto mais eu estudo, menos creio, pois cada coisa que aparece, eu logo penso na possibilidade de uma resposta racional. Desse jeito no consigo ter f, no o bastante pra entrar em comunho com Deus. Parece que para ter f preciso ser ignorante s coisas, s informaes, s tecnologias e estudos das novas descobertas. :(

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