Introdução a Filosofia Cristã

Filosofia Cristã

INTRODUÇÃO

O estudo da disciplina Filosofia Cristã é muito importante dentro do leque das disciplinas do curso de Bacharel em Teologia.

Esperamos que os alunos sejam enriquecidos no conhecimento, ao estudar o conteúdo desta apostila e que no temor e na graça de Deus possam firmar em suas vidas uma filosofia cristã genuína, com base na Palavra de Deus.

FILOSOFIA CRISTÃ

(Nenhuma parte deste trabalho pode ser reproduzido sem a permissão do seu autor. Rev. Antonio Patativa)

A IDADE MÉDIA

Depois da divisão do império romano entre Oriente e Ocidente, este se divide em reinos formados pelos povos "bárbaros", que assimilam alguns valores romanos, de modo especial o cristianismo. Começa, então, a Idade Média, caracterizando cerca de um milênio (século V-XV) situado entre o esplendor do mundo greco-romano e o "seu" renascimento posterior. Esta denominação dada pelos renascentistas pretendia ignorar realizações culturais indiscutíveis que houve nessa época e se tornaram como que condição de possibilidade para o próprio Renascimento. A Igreja, muitas vezes acusada de obscurantismo é também a grande responsável pela conservação do pensamento clássico greco-romano até hoje. Os mosteiros, nessa época, representam a sobrevivência da cultura. Os monges beneditinos, nome derivado do fundador, São Bento (480-547), animados pelo lema "ora et labora", dedicaram-se não só à oração, mas à cópia, à compilação, à tradução para o latim e ao comentário de coleções antigas.

Mas a Idade Média não só conhece o trabalho de preservação fora do cristianismo, nas regiões árabes. Através dos filósofos árabes, o aristotelismo chega ao pensamento medieval do Ocidente. No diálogo entre cristãos e muçulmanos criam-se bases para o pensamento original. Nascem as universidades e a escolástica elabora alguns temas que sustentarão o Renascimento.

Quando se designa a Idade Média de idade das trevas, como o fizeram os renascentistas, no mínimo se mostra muita ignorância. Nesse período histórico houve grandes realizações culturais que ainda carecem de estudos mais profundos. A Idade Média desenvolve um ideal de vida social, política e religiosa que deixou profundas marcas nas instituições, na organização social e política, na arte e na cultura. É na Idade Média que se erguem as catedrais, que surgem as universidades, que se recria o império, que São Tomás de Aquino escreve a Suma Teológica e Dante a Divina Comédia.

É na Idade Média, sendo imperador, Carlos Magno, que se organiza todo um sistema escolar para o povo sob a orientação do monge britânico Alcuíno (730-804). Criam-se três tipos de escolas: a) palatinas, ligadas aos palácios; b) monacais, junto aos mosteiros; c) episcopais, junto às catedrais. O conteúdo do ensino foi unificado, compreendendo, à maneira romana, as sete artes liberais: gramática, retórica e dialética (trivium); geometria, aritmética, astronomia e música (quadrivium). As escolas de artes liberais preparavam à escola de Teologia. Muitas dessas escolas, no início do século XIII, originaram as primeiras universidades.

Nos tempos modernos reinou certo descrédito em relação ao pensamento medieval, fundado, em grande parte, num preconceito contra a aliança entre filosofia e teologia. Mas, a partir do século XIX forma-se nova imagem do medievo, exaltando-se, hoje, entre os críticos, a vitalidade pujante do renascimento carolíngio e do renascimento nos séculos XII – XIII, a concepção hierárquica da sociedade, o espírito religioso cristão, etc. O objetivo do presente trabalho é trazer um resumo geral da Filosofia Medieval, com o objetivo de servir de pesquisa acadêmica no decorrer do curso de Filosofia Cristã.

INTRODUÇÃO

Embora seja um ser que transcende seu mundo e determina, de certa forma, seu próprio destino, o homem é também fruto de um lugar e de uma época. As condições físicas e sociais em que qualquer indivíduo vive deixam sua marca em seu corpo, em sua personalidade e em seu pensamento. Por isso, para que compreendamos a filosofia da Idade Média, convém fazer uma breve pausa aqui para olhar superficialmente as tendências históricas que iremos estudar.

Definição terminológica

O termo "Idade Média" se aplica imprecisamente ao período da história européia entre as civilizações antigas e modernas. É uma denominação dos nossos tempos, escolhida conscientemente para caracterizar uma era estranha ao nosso pensamento por ser consolidada por um sistema religioso. O mundo antigo da Grécia e de Roma, dominado pelo secularismo, é, de certa forma, mais compreensivo à nossa mentalidade, e este fato se evidencia na denominação de "Idade Média". Evidentemente, os homens e mulheres que viveram neste período não eram cônscios de seu lugar na história. No entanto, para nós, o adjetivo "medieval" possui tantas implicações que, ao usá-lo, inconscientemente cometemos o absurdo de pensar que ele é aplicável a pessoas que se consideravam medievais.

O início da Idade Média

Várias são as datas sugeridas como início da Idade Média:

a) a queda de Roma, em 476;

b) o coroamento de Carlos Magno, em 800; a morte deste, em 814;

c) o fim do império dos Francos, em 843.

A mais aceita dessas datas é a primeira: a colonização em larga escala de povos germânicos dentro dos limites do império Romano, a impossibilidade de o governo imperial se manter nessas condições e a resultante perca de seu domínio do mundo mediterrâneo foram de tal importância que justificam o uso do "antigo" e "medieval" na descrição da sociedade antes e depois do acontecimento.

O fim da Idade Média

É mais difícil determinar o fim do período. As possibilidades seriam:

a) a Reforma na Alemanha, instituída por Martinho Lutero;

b) a descoberta da América por Cristóvão Colombo;

c) a invenção da imprensa móvel por Johann Gutemberg;

d) o término da Guerra dos Trinta Anos no tratado de Westfália.

Todos os peritos concordam em que à Idade Média segue um movimento denominado Renascença, que foi mais intenso nos séculos XV e XVI, embora não tivesse começo claro e nem fim demarcado. Nessa base podemos definir o fim da Idade Média como um ponto alcançado em diferentes épocas e de várias maneiras pelo domínio de um novo espírito econômico, social, artístico e religioso. No entanto, até hoje, perduram no mundo inteiro inumeráveis instituições e modos de pensar nitidamente medievais.

Características da Idade Média

O estudo da filosofia na Idade Média comumente abrange um período bem maior, estendendo-se desde o tempo de Jesus até a aurora do pensamento científico, no século XV. É uma filosofia dominada pela Igreja Cristã, que nesse período se encontrava no auge de seu poder temporal.

a) A primeira característica do período é o desenvolvimento gradativo de uma organização social intensamente estratificada, chamada feudalismo. No princípio da era cristã, sob o domínio romano, os homens da Europa eram uniformemente controlados pelo Império de que, em pagamento por sua fidelidade recebiam os benefícios da Paz Romana. Mas, no quinto século, o poder e a paz romanos chegaram ao fim. Os reis francos da Gália, para manter a ordem em seu território, dividiram as terras entre seus mais poderosos guerreiros. Cada um desses era autônomo dentro de sua região, comprometendo-se apenas a fornecer ao rei auxilio militar quando solicitado. Depois de Carlos Magno, o feudalismo se desenvolveu rapidamente em toda a Europa, pois auspiciou ao homem comum sua única proteção contra a anarquia da época. Os nobres logo abaixo do rei dividiram suas terras entre nobres menores, que, por sua vez, fizeram novas distribuições. Isto levou a uma estratificação completa em classes distintas, a partir do rei e terminando com os servos, estes considerados propriedade quase inanimada, ligada à terra.

O receptor do terreno se chamava vassalo; o doador, senhor. Este prometia àquele proteção e conselhos e recebia dele serviço militar , ou qualquer outro serviço necessário. Os senhores gozavam independência total em suas respectivas áreas, de modo que "rei" chegou a ser título, sem qualquer autoridade.

b) A Segunda característica da Idade Média foi o desenvolvimento de estados nacionais. Várias foram as causas, mas a principal entre elas talvez tenha sido a oposição comum das classes superiores e inferiores. Os reis obviamente eram adversos a um sistema prejudicial ao poder real; o homem comum, à medida que se desenvolviam as idéias democráticas, também sonhava com um novo sistema. Ao mesmo tempo, as Cruzadas levavam muitos senhores à Terra Santa. Nas guerras com os infiéis, muitos morreram, enquanto outros perderam seus bens materiais. Com o desenvolvimento de cidades, surgiu uma nova classe operária, que se revoltou contra o sistema senhorial. Por essas e outras razões, criaram-se, pouco a pouco, monarquias absolutas, que integraram as lealdades individuais em um centro. Paralelamente, a secularização da vida e dos sistemas educacionais nutriu o desenvolvimento dos vernáculos, que pouco a pouco contribuíram para o espírito nacionalista. E ainda a interdependência econômica que demandava unidades cada vez maiores outorgou ao nacionalismo possibilidade de se desenvolver.

c) A terceira característica da Idade Média foi o domínio absoluto da Igreja Cristã. O império Romano perdera seu lugar de liderança às hordas de bárbaros que haviam descido do norte, saqueando e queimando a Europa. Esses, no entanto, não possuíam a civilização necessária para governar a área. Nesse período, quando o poder político e militar deixou de Ter sentido, foi a Igreja que assumiu a posição de liderança, tornando-se unificadora da cultura que, de outra forma, teria desaparecido. Em proporção direta à queda e desaparecimento do Império Romano, surgiu e cresceu essa nova entidade que dominou a Europa completamente até o século XVI, assumindo poderes políticos e econômicos, paralelos a seus poderes espirituais e, às vezes, maiores que esses.

Estas são as características comumente reconhecidas, que nos levam a identificar a Idade Média como período intensamente fechado e indesejável: o feudalismo era uma estratificação injusta que fazia com que alguns poucos tivessem vida luxuosa às custas da grande massa da população. Desenvolveu-se um polissistema ético e moral intolerável. O desenvolvimento do espírito nacionalista fechou fronteiras e proibiu o intercâmbio cultura, causando uma Europa dividida contra si até o dia de hoje. E o domínio absoluto da Igreja, em termos políticos e econômicos, (afirmando-se a dona absoluta da verdade e o caminho único à salvação) atrasou o desenvolvimento do continente, tendo sido ainda contrário à tarefa essencialmente espiritual que ela deveria exercer.

A Europa era sociedade aberta até o século XIII

Tudo isso é verdade. Mas há um outro lado da moeda de que não podemos nos esquecer. A Idade Média foi um período que abrangeu mais de mil anos. Como todos os períodos históricos, este chegou ao auge no seu fim, exatamente no momento em que começou o seu declínio, resultado este de suas características mais salientes. No princípio do período a situação da Europa era muito diferente. Friederich Heer, em um livro erudito e ainda encantador, chamado Mittelalter (The Medieval World), indica que até meados do século XIII, a Europa apresentava características de uma sociedade completamente aberta. As fronteiras políticas, religiosas e intelectuais que, no fim do período, constituíram barreiras verdadeiras, ainda não se haviam formado.

Liberdade política

Em sentido político, o leste da Europa estava aberto ao povo do oeste. Até à época do assalto dos Mongóis e à Quarta Cruzada, a Rússia estava ligada à Europa pelo comércio e por casamentos, entre as aristocracias internacionais. E ainda mais, a Rússia formava uma espécie de ponte para o intercâmbio comercial e cultural entre o leste e o oeste. As monarquias, embora existentes, eram fracas e o feudalismo estava ainda em formação. Tudo isso significa que os cidadãos determinavam com certa liberdade a quem seriam leais e movimentavam-se de lugar em lugar abertamente. Essa liberdade desapareceu somente no fim do período.

Intercâmbio religioso

A brecha entre as Igrejas Romana e Bizantina só solidificou ao fim da idade Média. O conflito entre elas nada mais era que a continuação do choque antigo entre a Grécia e Roma, entre o leste e o oeste. Havia, no entanto, um intercâmbio mais ou menos amigável no sentido doutrinário, o filosófico, cerimonial e eclesiástico que durou até o século XIII. A ruptura final só ocorreu depois da Quarta Cruzada.

Contribuições da Igreja ao desenvolvimento europeu

Embora o fim da Idade Média tenha chegado a uma posição evidentemente incoerente com seu ideal e seu propósito, a Igreja fez grandes contribuições ao desenvolvimento europeu. Ela foi o poder formador do povo europeu e deu direção às energias dos povos robustos da área, em um período quando grande porcentagem dos habitantes passava do barbarismo à civilização. Seu poder invencível impediu brigas internas e impôs a lei e a ordem, imprescindíveis ao progresso.

União

Aceitando a organização social dos bárbaros, a Igreja permitiu, a princípio, pleno desenvolvimento, com resultados extraordinários. Estes, por sua vez, exigiram a reorganização eclesiástica e o desenvolvimento do papado. A Idade Média era uma interação admirável de forças políticas e eclesiásticas, partindo do feudalismo e terminando na organização de sociedades urbanas ou nacionais. Durante todo o período, a Igreja manteve firme seu conceito de união e seu direito inalienável de interpretar a lei.

O valor da vida

Outra contribuição valiosíssima da Igreja medieval foi a interpretação do valor da vida. O povo almejava certezas, rochas em que alicerçar sua vida; a Igreja criou dogmas, fatos indiscutíveis. O homem queria aventura: a Igreja lhe deu experiências monásticas sem número, e as Cruzadas para os mais temerários. Aspirava-se ao conhecimento e ao entendimento: a Igreja produziu escolas e universidades, que interpretavam o conhecimento antigo e harmonizavam com o ensino teológico da época. Os humildes precisavam deixar sua marca no mundo, registrando para gerações futuras sua passagem por ele; a Igreja construiu as indescritíveis catedrais, unindo a energia do povo em expressão religiosa. O homem comum, nada possuindo nesse mundo, olhava para sua Igreja, representante de Deus na Terra: via sua riqueza, sua glória, seu poder e compreendia que, por ser filho de Deus, ele mesmo participava de tudo isso e, ainda, que chegaria enfim à mesma glória eterna.

De nosso ponto de vista histórico, é fácil censurar a Idade Média. Apontamos, com críticas severas, as desigualdades do sistema feudal, a educação somente para a aristocracia e, acima de tudo, o domínio inflexível em sentido político e temporal, da Igreja, que deveria exercer seu controle em âmbito espiritual e religioso. Entretanto, é necessário nos lembrarmos de que tudo isso aconteceu há mil anos. Os homens de então não possuíam nossa mentalidade nem tampouco nossas necessidades e, certamente, não se dirigiam por nossa interpretação da vida. A Idade Média foi um período necessário, uma época criativa, pela qual os homens tinham que passar, da mesma maneira que um menino necessariamente experimenta a adolescência para depois gozar uma vida adulta completa. Nossos sistemas educacionais e políticos, nosso pensamento científico, nossa expressão artística através da música, drama ou artes plásticas, são desenvolvimentos de idéias medievais. Se hoje reagimos conscientemente contra sua doutrina e suas idéias fundamentais, nossa reação realmente testemunha sua força e poder.



CARACTERÍSTICAS DA
FILOSOFIA MEDIEVAL

Se o fato fundamental da Idade Média foi o domínio absoluto do sistema eclesiástico e se a filosofia necessariamente é produzido dentro de um determinado tempo e lugar, e fala para um determinado povo, não nos é difícil compreender por que todo o pensamento medieval foi dominado pela Igreja. A filosofia da Idade Média é sempre teologia. Como tal apresenta características muito diferentes do pensamento grego dos tempos anteriores.

Campo de especulação

Primeiramente, o campo de especulação nesse novo período era Deus, o SER IDEAL, que jamais pode ser comprovado. Assim, o pensamento deixa o campo concreto e objetivo da natureza para entrar em abstrações. Não havia necessidade de estudos objetivos a fim de se chegar à verdade sobre Deus, pois esta era revelada propriedade exclusiva da Igreja, por ela dispensada.

Virtude

A virtude não era mais a felicidade em si, mas sim os bens teológicos: a fé, a esperança, a caridade, que seriam recompensadas de acordo com a vontade divina e que levariam o homem à felicidade eterna com Deus. Assim, surgiu um novo sistema de valores, baseados no amor, cuja finalidade era a vida espiritual, levando o seguidor fiel a uma vida eterna nos céus.

Método filosófico

O método filosófico, portanto, também teve que mudar. Se a verdade é revelada, o sujeito não precisa estudar um objeto para descobri-la. Ele passa a refletir sobre si mesmo, à procura das verdades eternas. Para expressar seu pensamento, o silogismo assume imensa importância: por meio dele se produz uma ciência interna de pensamento que sempre está certa, embora nem sempre seja verdade.

Pensamento

O resultado de tudo isso, aquilo que chegou aos nossos dias, foi a formação de um corpo lógico e coerente de doutrina que domina a Igreja Cristã e, por intermédio dela, o mundo ocidental, até hoje. Essa doutrina toma duas formas : a teologia (base da fé) e a teodicéia (base da razão). Em ambos os casos, os filósofos da Idade Média providenciaram a sistematização dos antigos pensamentos pagãos e os adaptaram à nova experiência cristã, de modo a construir uma nova filosofia-teologia. Essa, que pode ser chamada de autêntica filosofia cristã, resultou de um trabalho árduo, intenso, profundo e de certo modo secular, de adaptação, assimilação e transposição do pensamento grego e, paralelamente, a descoberta do significado da revelação. É o assunto de nosso estudo.

Períodos da Filosofia Medieval

Na história da filosofia medieval, distinguem-se dois grandes períodos históricos, cada um se caracterizando por um tempo de formação, um apogeu e um período de decadência.

O primeiro chama-se Patrística e estende-se até o oitavo século. É a filosofia dos primeiros padres da Igreja, tendo como figura dominante a de Agostinho de Hippo.

A filosofia patrística é expressão do fervor escatológico de um novo seito que lutava pela sobrevivência.

O segundo, denominado Escolástico, que se estende do nono ao décimo quinto século, é o período em que a filosofia cristã, propriamente dita, foi sistematizada e organizada. Sua figura principal foi Tomás de Aquino. O escolasticismo incorpora a serenidade de uma religião imperial e universal, cuja piedade fundamental já se suavizava por um novo senso de responsabilidade por "o que é de César".

A PATRÍSTICA :
A FÉ À PROCURA DA RAZÃO
OS PADRES APOSTÓLICOS (Século I – II)

O apóstolo Paulo

Saulo, que se tornou Paulo por meio de uma profunda experiência mística (Atos 9), nasceu em Tarso. Era judeu de sangue, da seita rigorosa dos fariseus; era cidadão romano, nascido em cidade livre do Império, gozando, de todos os privilégios da cidadania; e seguia a cultura grega que predominava em sua cidade natal. Depois de sua conversão ao Cristianismo, este homem se dedicou à evangelização do mundo, viajando de lugar em lugar para pregar a mensagem do Cristianismo aos Judeus, aos Romanos e aos Gregos nas principais cidades do mundo. Durante anos manteve correspondência com as igrejas em que havia pregado e estabelecido; são essas cartas que nos revelam o pensamento do apóstolo.

Paulo não era teólogo, muito menos filósofo. Suas cartas constituem uma doutrina da salvação.

O homem, para Paulo, foi criado à imagem e semelhança de Deus. A lei divina está escrita no seu coração, embora ele esteja atualmente sob o controle do pecado, uma força exterior, diabólica, contrária à sua natureza essencial, que entrou na vida humana e reduziu o homem ao estado de escravatura. Pecado é uma entidade real, quase pessoal, não apenas um ato, nem tampouco o impulso que promove o ato, mas algo muito mais profundo. O conceito paulino de pecado tem, assim, duas faces: é o fato primeiro que determinou a alienação do homem, e é o estado decorrente desse fato. É um fato e um estado tão universal que produz uma unidade corpórea na raça humana: somos todos pecadores.

João, o apóstolo

Se Paulo não era filósofo, outro padre apostólico tem mais direito ao título: o homem que chamamos de João, autor de um dos Evangelhos e possivelmente de três pequenas epístolas neotestamentárias. Seus conceitos são bem mais adiantados que os de Paulo, evidentemente seus livros foram escritos no fim do primeiro século, cerca de cinqüenta anos depois do trabalho paulino. A realidade do Deus de João, é um relacionamento mútuo entre o Pai e o Filho: o Pai ama o Filho e se lhe revela. O Filho age e vive em nome do Pai, exercendo a vontade dele. De maneira difícil de se entender, no entanto, o Pai e o Filho são um, existindo mutuamente desde a fundação do universo. Da união do Pai e Filho resulta o Espírito Santo, essência divina, dada aos homens para possibilitar sua união com Deus e sua felicidade. Deus é chamado Espírito, Luz, Amor.

Segundo João, a vida do homem na terra é um conflito trágico e eterno entre forças contrárias: luz e trevas, verdade e falsidade, céu e terra. Mas o homem pode mudar essa orientação por um novo nascimento que o coloca no mundo superior: é o nascimento do espírito que produz completa regeneração. Jesus é do mundo superior, o mundo de Deus. Veio para redimir os homens e fazer com que pudessem experimentar um novo nascimento, para entrar, desde já, na vida eterna.

A PATRÍSTICA (Século II-III)

Dionísio – o pseudo areopagita

São Dioniso Areopagita viveu em Atenas no I século de nossa era. Membro do Areópago foi convertido por São Paulo e tornou-se o primeiro bispo de Atenas. Vários textos datando do século V foram-lhe durante muito tempo atribuídos: "Hierarquia Eclesiástica" , "Hierarquia Celeste", "Teologia Mística", etc. . A mística cristã antiga teve, além do Antigo Testamento e do neoplatonismo, outra fonte de igual importância : os escritos atribuídos a um discípulo de São Paulo, Dionísio, o Areopagita (Pseudo-Dionísio), que, apesar de muito pouco se saber da sua vida, nada tem que ver com o Dionísio mencionado na história dos apóstolos (Atos 17,34). Entre seus escritos, "Nomes Divinos" é o que mais tenta aproximar uma leitura mística do cristianismo. Sua teoria, exposta em tratados como "Teologia Mística" e "Hierarquia Celestial", em síntese diz o seguinte: "Deus, incognoscível por sua própria natureza, como que se manifesta aos homens por meio dos sentimentos de amor, sabedoria e retidão, sendo a "Divindade a unidade, a Causa além das causas, o origem de todas as origens". Dionísio, adepto da Via negativa, ou seja, da impossibilidade de existirem palavras para descrever Deus, foi um divulgador entusiasmado do neoplatonismo, apesar de nele criticar um excessivo apelo à razão, que funcionaria como obstáculo intransponível à plena fruição da divindade. Para ele, o mortal comum chega a Deus por intermédio de entidades angélicas puras, as quais transmitem a "Luz Divina" com tal intensidade que é difícil suportá-la. Seus escritos têm passagens confusas, mas nem por isso deixam de transmitir com clareza o ponto central da sua doutrina : Deus, entidade acima do conhecimento humano ordinário, é causa de todo ser, embora as possua em grau infinitamente maior. O místico reconhece essa "superioridade", mas nem por isso inibe-se de mergulhar no âmago da divindade : ao contrário, é ela que o atrai, como uma espécie de desafio supremo da transcendência da sua condição "humana".

Justino (Nápoles, 100 – Roma,165)

Chamado mártir pela maneira de sua morte, nasceu de pais pagãos em Samaria, cerca de 100 d.C. O estudo profundo da filosofia grega levou-o à convicção de que essa não era irrepreensível. A ler as obras dos profetas judaicos, concluiu que sua antigüidade, santidade, mistério e profecias os aprovavam como intérpretes exemplares da verdade. Justino se converteu ao Cristianismo na cidade de Éfeso e começou a aplicar seu treinamento filosófico à vida e morte de Jesus, viajando de lugar em lugar, ensinando e discutindo as crenças cristãs na esperança de levar pagãos educados a Cristo por meio da filosofia.

Os livros de Justino constituem uma defesa viril dos Cristãos. Se estes cometeram crimes dignos de punição, diz ele, devem ser punidos. Mas não merecem castigos simplesmente por causa de seu nome, sem nem serem ouvidos. Quem está pronto a morrer por sua fé, obviamente, possui a verdade. Diz Justino: "Eu mesmo procurei a verdade em todos os lugares e só a achei no Cristianismo". Manteve que o Cristianismo era o aperfeiçoamento da lei, visto ser as pregações de Jesus a complementação dos ensinos vetero-testamentários e ele o cumprimento das profecias messiânicas ali encontradas. Suas obras principais: As duas Apologias, Diálogo com Trífon.

Taciano

É o protótipo e o ancestral dos pensadores que o cristianismo, fechado em si mesmo, está mais pronto a excluir do que curioso de assimilar. Ele conservou a vida inteira o gosto literário e o estilo muitas vezes obscuro que contraíra em sua juventude. Depois de Ter viajado muito e Ter-se iniciado em diversas disciplinas, notadamente a filosofia, converteu-se ao cristianismo por motivos análogos aos de Justino. Taciano foi, então, a Roma, lá conheceu Justino e tornou-se seu discípulo. Sua obra principal: "O Discurso aos Gregos" é datada pelos historiadores de entre 166 e 171. Taciano foi cada vez mais em direção a uma espécie de gnosticismo e aderiu em 172 à gnose de Valentim. Mais tarde, ele devia seja fundar, seja restaurar a seita dita dos encratitas, professando um rigorismo moral absoluto, proscrevendo o casamento e prescrevendo a abstinência de carne e de vinho, sob pena de pecado. Taciano levou tão longe a aplicação de seus princípios que chegou a substituir o vinho pela água no sacramento da eucaristia. A teologia de Taciano não difere da de Justino. O Deus de Taciano é único, invisível aos olhos humanos e puro espírito. É o princípio de tudo o que existe, isto é, sendo ele mesmo imaterial, causou a matéria.

Atenágoras

Sua obra Súplica pelos Cristãos é dirigida por ele como discurso de embaixada ao imperador Marco Aurélio e a Cômodo. Diz Atenágoras: "É preciso nos informarmos sobre Deus com Deus", isto é, na Revelação; mas, feito isso, podemos refletir sobre a verdade revelada e interpretá-la com auxilio da razão. É o que ele chama de demonstração da fé. Atenágoras acha-se um passo adiante de seus antecessores no que concerne à teologia do Verbo. Ele insiste vigorosamente sobre a eternidade do Verbo no Pai e não fala mais dele como de um "outro Deus", mas conserva a noção de uma geração do Verbo como pessoa distinta que Ter-se-ia produzido tendo em vista a criação.

Teófilo de Antióquia

Sua obra Ad Autolycum, não se dirige a um imperador, mas a um particular, Autólico, que censurava Teófilo por ter-se convertido ao cristianismo. Trata-se, pois, de uma apologia num novo sentido de tormo, e mais próximo do que hoje lhe é atribuído. A obra é nitidamente inferior às de Justino, tendo o autor sido definido como "um Taciano sem talento".

Santo Irineu

Nasceu em Esmirna, por volta de 126, provavelmente numa família cristã. Desde a sua juventude freqüentou muito Policarpo, ele próprio diretamente ligado à geração que conhecera Cristo. O pensamento de Irineu nos é dado conhecer por seu tratado Adversus haereses, de que restam extensos fragmentos gregos e uma tradução latina, inelegante mas fiel. A obra compreende, de fato, cinco livros: o primeiro descreve as doutrinas gnósticas, o segundo as refuta, os três últimos são uma exposição da doutrina cristã. Irineu aí se coloca de saída no terreno religioso e opõe ao chamado saber de seus adversários, o saber verdadeiro que é o ensinamento dos apóstolos e a tradição da Igreja no mundo inteiro. Assim, a verdade sobre Deus se oferece ao pensamento do homem no depósito impessoal da fé.

Hipólito

O mais célebre dos discípulos de Santo Irineu, Hipólito, ocuparia talvez, um lugar considerável na história do pensamento cristão, se ainda tivéssemos seu tratado quase inteiramente perdido, Contra os Gregos e Platão, ou Sobre o Universo. Nascido provavelmente em Roma, padre, depois bispo de uma comunidade cismática, morreu exilado na Sardenha, depois de uma carreira bastante tempestuosa, em 236 ou 237. Do que nos resta de sua obra de exegeta, teólogo e apologista, a parte mais importante para nós é sua Refutação de Todas as Heresias, comumente citada sob o título de Philosophoumena. Sua intenção principal nela é mostrar que, embora reivindiquem o cristianismo, as seitas heréticas não têm origem na tradição cristã, mas nas doutrinas concebidas pelos filósofos. Ele mesmo se inspira em quase toda a obra, em seus predecessores cristãos, e sua doutrina do Verbo é tão embaraçada quanto as de Taciano ou de Justino.

Clemente de Alexandria (Atenas 150-215)

Existe, por parte de muitos estudiosos, certa relutância em incluí-lo entre os místicos cristãos, mas a influência que exerceu sobre o desenvolvimento da teologia mística é inegável. Quase nada se conhece de sua vida. Sabe-se que não nasceu em Alexandria, mas foi atraído para aquela cidade, onde teria morado por trinta anos, devido à reputação de ser um dos centros mais importantes de irradiação do pensamento grego. Influenciado pelas idéias de Platão sobre o Ser último, imensuravelmente além do mundo, oferece como um suporte intelectual para o conhecimento místico por meio da adequação da idéia platônica do logos ( a razão como o coração do mundo) à manifestação "divina" de Cristo, combinando-a com os princípios da gnose. O cerne do seu pensamento repousa na síntese do conhecimento com a razão. Conhecer-se a si próprio, é, para ele, fundamental para o conhecimento divino, e conhecer Deus significa consumir-se em Deus. Em antítese ao gnosticismo herético, desenha o retrato do "verdadeiro gnóstico", o gnóstico cristão. Essa gnose das coisas divinas, superior à fé comum, aparece por vezes sob a pena de Clemente como uma doutrina esotérica, uma tradição secreta passada oralmente pelos apóstolos a alguns discípulos privilegiados e transmitida desde então de boca em boca. Há muito platonismo no cristianismo de Clemente. Suas obras principais são: O Protréptico (Exortações aos Gregos); Os Stromata, Exortação aos Gentios; O Pedagogo: Qual o Rico que Será Salvo?

Orígenes (cerca de 184-253)

Fora aluno, não apenas de Clemente, mas do filósofo Amônio Sakas, com quem, juntamente, foi co-discípulo de Plotino. Às vezes chamado a mais distinta e mais influente figura da Igreja primitiva, nasceu de família cristã em 185 ou 186 d.C., Alexandria, cidade altamente grega em sua cultura. Orígenes foi educado na Escola Catequética da sua cidade natal. Orígenes era teólogo, filósofo, professor e bispo, mas , acima de tudo, literato, o mais prolífico autor da Igreja primitiva. O número de suas obras – filosóficas, apologéticas e teológicas – foi estimado em cerca de seis mil, o que deve ser exagero. Poucas delas nos chegaram às mãos em sua forma original. Seus tratados: Contra Celso, destinado a refutar um filósofo médio-platônico adversário do cristianismo; O Discurso Verdadeiro que perdeu-se, Dos Princípios, que é a primeira exposição sistemática de filosofia e teologia produzido pela tradição cristã, uma espécie de Suma por antecipação onde está dito tudo de essencial sobre Deus, o mundo, o homem e as Santas Escrituras (o original grego desta obra se perdeu). Orígenes segue, em termos gerais, os ensinos de Platão. Constitui-se na primeira grande tentativa de uma cosmogonia e cosmologia cristãs. Deus disse, esse filósofo, é terno e imutável. Nunca houve um tempo em que Deus não fosse Pai e o Criador.

O Cristianismo, para Orígenes é um princípio prático da salvação. A simples fé é suficiente ao homem, mas a Igreja e suas doutrinas constituem a encarnação da fé verdadeira. O ideal para todos os homens deve ser uma vida sem tristeza, superior a todo o mal, estado calmo e ordem perfeita. Chegando a esse ideal, o homem se torna semelhante a Deus e entra no seu reino; é possível alcançá-lo por isolamento contemplativo e autoconhecimento, que constituem a sabedoria divina.

Gregório Nazianzeno (329-390)

Ele goza de uma grande reputação de teólogo na antigüidade cristã, que durante muito tempo precisaram a situação teórica do dogma da Trindade. Gregório advertira os arianos da urgência de abandonar as argúrias dos filósofos para voltar à simplicidade da fé, uma vez que Cristo escolheu seus apóstolos entre os pescadores e não entre os aristotélicos; põe em relevo, de outro lado, a incompreensibilidade de Deus, de quem só pode saber o que ele próprio nos diz de si próprio.

Basílio de Cesaréia (330-379)

Uma das suas mais interessantes obras para a história das idéias é sua coletânea de Homilias sobre o Hexaeméron, isto é, sobre o relato bíblico da criação; inspirando-se nas obras análogas de Fílon e de Orígenes, Basílio toma esse comentário como pretexto para expor o essencial das idéias cristãs sobre o mundo e sobre o homem.

Gregório de Nissa (335?-395)

Um dos três dos chamados Padres Capadócios – os outros dois foram seu irmão Basílio, O Grande (329?-379), e Gregório Nazianzeno -, é considerado um pensador de extrema importância na sistematização teológica, depois de Orígenes, a quem muito admirava. Sua cosmologia e sua antropologia exprimem-se igualmente sob a forma de comentários do início do Gênese, que distribui por seu lado em dois tratados, um sobre o Hexaeméron, o outro Sobre a Criação do Homem. Sua explicação do mundo repousa sobre uma teoria dos elementos e de seu liame mútuo (syndesmos), que é de origem platônica, mas deve estar ligada mais precisamente ao estóico Posidônio. Em suas Homilia Sobre o Cântico dos Cânticos e em sua Vida de Moisés aborda o problema que considera essencial, o do conhecimento de Deus.

Nemésio

Como Gregório de Nissa, Nemésio concede à ciência da natureza humana, e particularmente da alma, uma posição central no conjunto do saber humano . Baseada no conhecimento das artes liberais e nutrindo-se de toda filosofia, ela lhe restitui com juros o que dela recebe. De fato, o estudo do homem é uma parte da física, mas dele nascem, por sua vez, numerosos ramos das ciências da natureza. Daí o nome que Nemésio lhe dá: Premnon physicon, isto é, tronco das ciências naturais. É freqüente encontrarmos na Idade Média a obra de Nemésio citada sob esse título enigmático, por exemplo, no Metalogicon, de João Salisbury.

João Damasceno

O último grande nome da patrística grega conhecida da Idade Média é o de João de Damasco, dito João Damasceno (falecido em 749) . Sua obra mestra: A fonte do conhecimento (Pége gnôseôs), contém uma introdução filosófica, depois uma breve história das heresias, enfim, numa terceira parte uma coletânea de textos, tomados, de seus predecessores e dispostos em ordem sistemática, sobre as verdades fundamentais da religião cristã. Essa última parte, traduzida em 1151 por Burgúndio de Pisa (o tradutor de Nemésio), servirá de modelo para as "Sentenças de Pedro Lombardo". É a obra que encontraremos citada com freqüência no século XIII, sob o título de De fide orthodoxa. Damasceno não pretendeu ser um filósofo original, mas constituir uma coletânea cômoda de noções filosóficas úteis ao teólogo, e certas fórmulas que pôs em circulação tiveram extraordinário sucesso. Desde o início do De fide orthodoxa, ele afirma que não há um só homem em que não esteja naturalmente implantado o conhecimento de que Deus existe. João Damasceno estabelece a existência de Deus mostrando que tudo o que nos é dado na experiência sensível é mutável; que mesmo as almas e os anjos o são; que nada o que vem a ser por via de mudança é incriado; que tudo o que nos é dado assim é criado e que, por conseguinte, seu criador incriado existe.

Cassiodoro (480-575)

Favorito de Teodorico, ocupa cargos públicos importantes. Depois, por volta de 540, retira-se para o mosteiro de Vivário, onde se consagra à pesquisa e ao ensino. Obras principais são: Institutiones Theologicae; Saeculares Lectiones; De Anima; Compilações tiradas de Donato, de Cícero, de Quintiliano, de Boécio. É um erudito que assegurou a conservação da cultura clássica e patrística; ele o fez notadamente ao reunir uma rica biblioteca (cujo catálogo é conhecido) no mosteiro que fundara em Vivário, na Calábria, e para onde se retirou por volta de 540, ao abandonar suas atividades profanas, como é de se esperar de um colecionador de manuscritos, sua obra principal é uma espécie de enciclopédia, intitulada Da Instituição das escrituras Divinas e Seculares, que contém uma introdução à teologia e à Santa escritura, e um compêndio das sete artes liberais (gramática, retórica e dialética, ou trivium, aritmética, música, geometria e astronomia, ou quadrivium).

Beda – O venerável (672-735)

Escreveu no monastério o tratado De Natura rerum, em que descrevia o mundo segundo a ordem dos elementos: o céu, com seus planetas e estrelas; o ar, com os meteoros, cometas, ventos, trovões, raios, arco-íris; as águas, o oceano com seus mares e as cheias do Nilo; a terra , com sua vida interior, seus vulcões.

Rabano Mauro (776-856)

Abade do monastério de Fulda, em 882 escreve uma obra que versa sobre a maneira de instruir os clérigos, como se vê em De Institutione Clericorum. O livro terceiro dessa obra, é uma compilação dos três últimos livros da Doutrina Cristã, de Santo Agostinho, leva, direta ou inidiretamente, toda ciência ao conhecimento das verdades da religião, contida na ciência das Escrituras.

Alcuíno ( 730-806)

Carlos Magno fez de Alcuíno o mestre da escola do palácio. Ele escreveu diversos tratados e notadamente uma obra de psicologia intitulada Da Razão da Alma, sua importância se deriva muito mais de sua ação organizadora; sua ambição confessada foi a de restaurar o templo da sabedoria, que o Livro dos Provérbios diz ter sido edificado sobre sete colunas; entendamos com Alcuíno que a Sabedoria funda-se nas setes artes liberais de que tratara Cassiodoro; isso eqüivalia a considerar a filosofia como um saber enciclopédico, ou ainda, assim como ele próprio diz ao retomar uma definição mais antiga, como "a ciência das coisas humanas e das coisas divinas". Alcuíno ocupou-se mais da gramática do que da filosofia e do seu trabalho de reunir textos antigos, foi assim que conseguiu de Carlos Magno que se transportassem manuscritos de sua antiga biblioteca de Iorque para seu mosteiro de São Martinho de Tours. Alcuíno formou discípulos que prosseguiram sua obra na França e na Alemanha.

Tertuliano de Cartago

Foi o mais vigoroso e eloqüente dos apologistas latinos. Filho de família pagã, nascido nos meados do segundo século, foi muito bem instruído e durante algum tempo depois de seus estudos praticou a advocacia. Mas, ao converter-se, começou a empregar sua inteligência extraordinária e sua educação superior a serviço do Cristianismo. Entre as numerosas apologias, a obra-prima deste autor chama-se Apologeticum. Tertuliano afirma que a filosofia é a mãe das heresias; nada tem em comum com a fé, que é o mistério indemonstrável, a revelação divina. Os filósofos são os patriarcas dos heréticos. Em contraste com a filosofia, a Verdade do Cristianismo se fundamenta sobre a tradição e sobre o voz do senso comum, ou do homem simples e inculto. Há um conflito irreconciliável entre a fé e a razão. Tertuliano demonstra uma atitude intransigente anti-intelectualista e anti-racionalista. A contribuição principal de Tertuliano não se encontra nas suas obras apologéticas, e sim em sua definição da natureza de Deus, que deixou marca indelével na Igreja. Claramente influenciado pelos Estóicos, o conceito de Tertuliano envolve um materialismo exagerado.

O FIM DA PERSEGUIÇÃO (Século IV)

A Segunda metade do século IV e o princípio do século seguinte representam a Idade de Ouro da Patrística. No período de sua formação, o Cristianismo se espalhou pelo mundo inteiro. A perseguição social e religiosa por parte dos judeus, a intelectual por parte dos gregos e especialmente a física por parte dos romanos, que mataram milhares de cristãos nos primeiros dois séculos da nossa era, evidentemente serviram de desafio, levando a Igreja a um crescimento célebre e realizações inacreditáveis. Iniciou-se um período em que não era mais necessário à Igreja se defender de adversários externos. O Cristianismo se estabeleceu como um fato a ser aceito e não combatido.

Ambrósio

Governador da região norte da Itália, eleito bispo de Milão, em 374, antes mesmo de se convertem ao Cristianismo, é tido pela Igreja como grande teólogo, tanto que é incluído entre os Doutores ou Mestres oficiais do Catolicismo. Mas seu pensamento teológico não era original; suas obras são essencialmente reproduções do pensamento grego da época, ao qual acrescentou um significado mais profundo de pecado e de graça. No sentido prático, Ambrósio fez grande contribuição à história da Igreja: suas obras sobre ética demonstram plena simpatia pelo ascetismo, que em sua época era grandemente discutido e começava a exercer influência sobre o pensamento e a atividade do povo. Ambrósio também escreveu vários hinos, por meio dos quais contribuiu diretamente à vida cerimonial da Igreja. E acima de tudo, organizou seu episcopado de tal forma a resistir às forças do mal e contribuir para a vida do povo, mesmo em meio às decadências do Império.

Jerônimo

Nos meados do quarto século , nasceu, perto da cidade de Aquiléia, na praia norte do mar Adriático, Eusébio Hierônimo Sofrônio, conhecido como Jerônimo. Aos dezesseis anos foi para Roma estudar. Ali ficou impressionado pela glória e riqueza do Império, pela luxúria e sensualidade das classes mais altas, e, paralelamente pela decadência, pela pobreza e pela revolta de espírito que começavam a se fazer sentir. Muitos romanos, especialmente das classes mais altas, começavam a levar a sério o mandamento de Jesus a um jovem rico: "Uma cousa ainda te falta; vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me". Essas pessoas aceitaram a vida em reclusão como a única maneira de se poder realmente ser Cristãos. Jerônimo resolveu renunciar ao mundo e separar-se do pecado universal em uma vida ascética. Para tal, uniu-se a um mosteiro perto de sua cidade natal, onde não apenas restringiu seus apetites físicos, mas fanaticamente, se absteve, por completo, de qualquer tipo de "prazer": de vinho, de carne, de propriedade, de casamento. Em 382 ele foi a Roma para participar do Concílio do papa Damasco, e ali recebeu a incumbência em cuja realização gastou o restante de sua vida: a tradução das sagradas escrituras para o latim. Este homem, portanto, era de grande capacidade intelectual mas, como outros de sua área geográfica, canalizou seus recursos intelectuais para trabalhos práticos, ao invés de para a especulação filosófica.

OS PADRES LATINOS

Tertuliano

Nascido por volta de 160, foi o primeiro dos padres latinos. De suas obras as que mais interessam à filosofia são duas apologias do cristianismo, intituladas Apologética e Da Prescrição dos Heréticos; é preciso acrescentar-lhes um tratado Da Alma, menos importante, aliás, pela exposição da doutrina do autor do que em razão das opiniões de numerosos filósofos antigos, freqüentemente mal conhecidos, que nela se encontram referidos.

Em Agostinho a Igreja atingiu seu ponto mais alto desde os tempos apostólicos. Foi nele que se fundamentou a superioridade definitiva da Igreja Ocidental sobre a oriental. Foi ele o único filósofo verdadeiro do período patrístico. Sua contribuição à filosofia cristã se alicerça por um lado no pensamento antigo, nas escrituras sagradas, e na tradição da Igreja. Por outro lado, sua própria experiência pessoal influenciou seu pensamento sobremaneira, de modo que convém olhar brevemente os fatos da vida desse grande homem, em geral relatados por ele mesmo em seu livro Confissões.

Santo Agostinho ( 354-430)

Nasceu em Tagaste, na Numídia, em 354. Seu pai, Patrício, pagão de alta posição social, embora de pouca fortuna, era homem mundano, gozador, típico de lugar e época. Converteu-se somente no fim de sua vida e há razão de se pensar que, mesmo então, o Cristianismo lhe fosse apenas superficial. Mônica, a mãe de Agostinho, por outro lado, era cristã de convicção intensa e dedicação ilimitada, que ardentemente procurava a verdade e que nutria enormes esperanças em relação ao seu filho. Agostinho era jovem dividido entre dois pendores: a paixão e a sensualidade epicuristas, procedentes de Patrício, e a procura sequiosa pela verdade que herdou de Mônica. Desde o princípio, Aurelius se entregou ao aprendizado da retórica, chegando enfim a ser brilhante mestre na matéria, primeiramente em Milão, mais tarde em Cartago. Enquanto estudante ele se dedicava ao prazer dos sentidos e à vida sensual, típica dos centros urbanos e intelectuais da época. Apaixonou-se por uma moça com quem estava legalmente impedido de se casar, pertencendo ele, em sentido jurídico, a uma classe ou categoria mais alta, cujos membros eram proibidos de contrair matrimônio com pessoas de níveis inferiores. Da união amorosa, nasceu um filho, Adeodato, a quem Agostinho amava profundamente. Aos dezenove anos estudou Hortensius, obra de Cícero, com isso abriram-se-lhe as portas da filosofia. Ele diz: "A leitura mudou meus sentimentos e transferiu para ti, Senhor, minhas súplicas". Não foi ainda uma conversão religiosa, e sim o nascimento de um desejo ardente de buscar a verdade como a única coisa de valor real. Como primeiro passo, começou a estudar as Escrituras Sagradas. Na fase seguinte de sua vida, abraçou por algum tempo o Maniqueísmo, combinação do velho dualismo persa de Zoroastro com elementos gnósticos e cristãos. Pouco a pouco, através de um exame crítico, Agostinho abandonou o Maniquesísmo e começou a freqüentar a academia platônica, onde foi tremendamente influenciado pelo Neoplatonismo. A visão dualista e materialista do mundo foi substituída por usa visão altamente espiritual. Deus foi concebido não apenas como fonte do bem, mas com fonte de realidade; conhecê-lo, portanto, seria a maior das bênçãos. O estudo profundo do Neoplatonismo tornou-lhe possível aceitar o Cristianismo. Seu pensamento é uma reconstituição cristã de Platão. Isto levou-o a um período crítico em sua vida: encheu-se de um sentimento de reprovação de si próprio e de sua conduta presente e passada, que considerava indigna de um homem intelectual. Encheu-se de vergonha diante de sua impotência em face da tentação. Foi este espírito de autocrítica que o levou finalmente à experiência de conversão ao Cristianismo, por intermédio de Ambrósio de Milão, quando ele tinha trinta e dois anos de idade.

A filosofia de Agostinho parte da premissa de ser a filosofia o único caminho que atinge a felicidade. A questão primordial da patrística é o relacionamento possível entre a fé e a razão, em particular a fé à busca da razão, ele acaba fazendo uma síntese, de certa forma retórica. "É necessário compreender para crer e crer para compreender." Filosofar, para Agostinho, nada mais que um instrumento destinado a auxiliar algo maior do que ele. O problema perene do jovem Agostinho foi a busca da Verdade em termos absolutos. É possível distinguir em sua filosofia três formas ou níveis de conhecimento: o sensorial, o iluminado e o místico.

A poderosa personalidade de Agostinho dominou o pensamento teológico e filosófico da Igreja durante quase um milênio. Sua linha de especulação, o platonismo cristianizado, foi a base da atividade cristã até o tempo de Tomás de Aquino, que no período seguinte, substituiu e superou seu antecessor.

A DECADÊNCIA DA PATRÍSTICA (Séculos VI – VIII)

As razões políticas para a decadência geral da cultura são bem conhecidas: baseiam-se na queda do Império Romano. Enraizada na mudança da capital de Roma para Constantinopla no quarto século da nossa era, e alimentada na cisão, cada vez maior entre o oriente e o ocidente, a queda européia, tomou forma definida com a invasão dos bárbaros, provenientes do norte, a partir do século V.

A Segunda razão da decadência da filosofia a partir do século VI foi eclesiástica. Antes de Constantino, a Igreja Cristã era uma minoria, encontrando seu poder no exemplo e no entusiasmo de milhares de pessoas fanáticas, que se mantiveram firmes em face da mais terrível perseguição. Os cristãos dessa época aceitaram a tarefa árdua de transmitir sua visão da verdade para a vida quotidiana, obra difícil, senão impossível, mas aceita tranqüilamente, mesmo que seu desempenho levasse à morte.

A ESCOLÁSTICA
A RAZÃO À PROCURA DA FÉ
(Séculos IX – XII)

O nome ESCOLÁSTICA deriva-se da palavra latina scholasticus, que designava, a princípio, o professor de artes liberais e mais tarde o de filosofia, que ministrava suas aulas no sistema estabelecido por Carlos Magno e depois nas Universidades, Escolástica quer dizer, então, a filosofia da escola ou a do professor. Usava-se fundamentalmente dois métodos de ensino: a lectio, isto é, a abordagem de um tema fundamentado em um texto, espécie de comentário deste; e a disputatio, discussão de um tema ou problema, em que o ensino consistia em aduzir os prós e os contras. A Escolástica representa o último período de pensamento cristão e paralelamente o último da filosofia medieval. Em geral abrange os séculos IX a XVI. Necessário é que nos lembremos de mais um fato histórico que influenciou sobremaneira a filosofia escolástica, a saber, a conquista dos Árabes, e por intermédio deles a redescoberta de Aristóteles.

A ESCOLÁSTICA
PERÍODO DE FORMAÇÃO
(séculos IX – XII)

Uma das características mais importantes da Escolástica pode ser chamada de mudança de base. A Patrística fundamentava-se no platonismo e no neoplatonismo e, com a derrota do Império Romano pelos bárbaros, outros pensadores antigos foram esquecidos. Mas a conquista dos árabes e sua subsequente influência na vida intelectual trouxe Aristóteles para a Europa. A tentativa de harmonizar a razão com a fé por parte dos pensadores dos séculos IX e XII se enraizou no sistema dela: a influência aristotélica é bem mais visível em todo pensamento do novo período.

Anicius Manlius Severinus Boécio (480 – 524)

Filósofo, cristão, estadista, geralmente denominado o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos. Sua filosofia formou-se uma espécie de ponte, ligando os sistemas da antigüidade aos da idade Média. Sua prática ousada de justiça e sua oposição à opressão levaram seus inimigos a acusá-lo, erroneamente, de alta traição e de conjuração contra o Imperador. Foi condenado e, finalmente, morto em 534. Sua obra filosófica mais importante foi escrita na prisão: chama-se De Consolatione Phisolophiae. Ele foi o primeiro pensador que procurou conciliar a fé com a razão, a ordoxia com a dialética. Do neoplatonismo tirou tudo o que sustentaria suas idéias cristãs, sem pôr em risco sua fé. Durante toda a Idade Média foi tido como homem de conhecimento e sabedoria profundos. Seus livros exerceram grande influência na terminologia da Lógica Ocidental. Seus tratados elementares sobre a aritmética e música tornaram-se livros textos para o quadrivium das escolas, sendo mais tarde, adotados pelas Universidades.

Na sua obra teológica Contra Eutychio, Boécio fala claramente de "matéria", o substrato comum dos corpos, que é a base para as mudanças visíveis nas substâncias corporais, ao mesmo tempo em que sua ausência em substâncias corporais torna impossível a transformação de uma substância imaterial em outra, ou de uma substância corporal em uma incorporal, ou vice-versa. A discussão é feita em termos teológicos, pois Boécio quer demonstrar que em Cristo ambas as naturezas, a divina e a humana, são distintas e reais.

No De Trinitate, Boécio discute o princípio correlativo da matéria, isto é, a forma. Para ele a Terra não é Terra por causa da matéria irrestrita e sim porque ele é uma forma distinta. Por outro lado, Deus, a Substância Divina, é Forma, sem matéria, de modo que não pode ser, nem ter, substrato. Quando chamamos Deus de "substância" não significa que ela a é no mesmo sentido que a são as coisas criadas.

Na Consolatione Philosophae, Boécio desenvolveu uma teologia natural, segundo Aristóteles. Com isso ele distinguiu, implicitamente, entre a teologia natural, o cúmulo da filosofia e a teologia dogmática, que aceita suas premissas como sendo reveladas. Ele prova a existência de Deus pelo argumento racional do Motor Móvel e discute a dificuldade aparente da reconciliação das idéias de livre arbítrio humano com o pré-conhecimento divino.

Boécio faz uma distinção clara entre Deus e o mundo, negando assim qualquer idéia de emanação. Segue estritamente a doutrina cristã da criação. Deus, sem qualquer alteração de si, pelo exercício de uma vontade conhecida somente por si mesmo, determinou a formação do mundo e o criou do nada, não o produzindo de sua substância, mas de matéria inteiramente nova.

Johannes Scotus Erígena (810- 877)

O primeiro escolástico a criar um sistema filosófico verdadeiro. Erígena estudou grego num mosteiro na Irlanda, embora no seu tempo tenha sido raro conhecer esse idioma. Por volta de 847 ele foi chamado à França para dirigir a Escola Palatina, o educandário da corte real. Poliglota, extensamente viajado, a primeira contribuição de Erígena, embora não a mais importante, foi a tradução de vários livros gregos para o latim. Erígena, contrariamente a Boécio, foi um filósofo legítimo: suas obras marcam a transição clara da antiga filosofia européia, nitidamente platônica, para a rigidez do escolasticismo, fundamentado em Aristóteles. O pensamento de Erígena também recebeu grande influência do Pseudo-Dionísio, um filósofo anônimo do século VI, cujas obras Erígena traduziu.

A obra principal de Erígena compõem-se de cinco volumes, escritos em forma de diálogo entre aluno e mestre, é intitulada De Divisione Naturae. Erígena é, no sentido lógico, panteísta, embora se considere cristão. Sua tese básica gira sobre o universo, a natureza ou Deus, cuja união última se expressa no sistema racional do mundo. A realidade é fundamentalmente dividida entre "as coisas que são" e as "coisas que não são", que em conjunto se chamam de natureza ou NATURA. Há vários graus do não ser: l) o pecador, que, por suas transgressões, perdeu a sua integridade; 2) o devenir, pois o que está em mudança é e não é ao mesmo tempo; 3) o ser potencial, pois o que é meramente potencial ainda não é real; 4) qualquer realidade superior, além do nosso entender intelectual. Sobre o SER, Erígena diz: "São verdadeiramente apenas aquelas coisas que se compreender unicamente pelo intelecto".

Avicena (979-1037)

O maior dos filósofos muçulmanos, criador do sistema escolástico para o mundo islamítico. Avicena era persa, nascido perto de Bokhara. Foi precoce e inteligente: aprendeu o Alcorão, a literatura árabe, geometria, jurisprudência e lógica. Depois ensinou a si mesmo a teologia, física, matemática e medicina. Aos dezesseis anos de idade já era médico praticante. Mais tarde se dedicou ao estudo da filosofia e da lógica, inclusive as obras de Aristóteles, que infelizmente não compreendia. Avicena nos diz que leu a Metafísica quarenta vezes sem compreender nada. Para Avicena, a filosofia tinha a tarefa primordial de esclarecer e aprofundar a fé, a qual nos dá, por inspiração divina, a verdade. Sua tarefa principal foi então, a de harmonizar a filosofia de Aristóteles com sua religião. Avicena é conhecido como o filósofo do SER COMO EXISTENTE. Ele levanta dois problemas fundamentais: a origem do SER existente e a transmissão da existência em essência. A experiência humana parte do sensível, que leva à certeza indubitável da existência do ser experimentado. A essência deve ser, no entanto, desnecessária. A essência não tem existência, embora possamos reconhecer a possibilidade de existir. A existência de um ser, portanto, só pode ser concebida como dádiva de um SER SUPERIOR, cuja essência e existência são interdependentes. Seria um SER simples, que é realmente Deus, a causa primordial de tudo o que existe. Segundo Avicena existem quatro etapas no conhecer humano. A primeira é a sensação, por intermédio de que o mundo material é imaterialidade para entrar no entendimento. A Segunda, é a imaginação que abstrai a matéria a sua interpretação. Em seguida, a estimação, que é a opinião ou as idéias particulares. E por fim, a apreensão do inteligível, que é a transformação do material individual em universal.

Anselmo de Aosta (1035-1109)

O primeiro grande filósofo medieval que enfrentou o problema dos universais foi Anselmo de Aosta, prior da Abadia de Bec. Seu pensamento se caracterizava por uma curiosidade ilimitada. Sua intenção explícita era pensar racionalmente. As obras que produziu revelam as características comuns do escolasticismo: a tentativa de elaborar um sistema racional da fé e um reconhecimento nítido da relação entre a razão e a revelação. Mas, ao mesmo tempo possuem ligações com seus antecessores patrísticos, pois o ponto de partida é necessariamente a fé. Disse Anselmo: "Eu creio para compreender". O fundamento da teoria do conhecimento de Anselmo se encontra num livreto chamado "De Veritate". Nessa obra ele considera primeiramente a natureza da verdade no conhecimento, na vontade humana, e em tudo o que existe, descobrindo que há graus de verdade, que o levam à afirmação da existência de uma Verdade Absoluta, de que as outras participam. Essa Verdade Absoluta é Deus, que, por isso, é o princípio último das coisas que existem, bem como do pensamento.

Pedro Abelardo (1097-1142)

O pensador mais vigoroso do século XII, e um dos homens mais interessantes de todo o período foi Pedro Abelardo. De personalidade genial e expansiva, Abelardo se dedicou mais à polêmica do que à organização sistemática de seu pensamento. No entanto, é reconhecido como figura original, que teve extraordinária influência no pensamento da Idade Média. É pensador cuja vida particular convém considerar, por ter esta influenciado sobremaneira o sistema que o filósofo desenvolveu. Na infância estudou o "trivium". O problema dos universais foi, portanto, o leite materno em que Abelardo foi criado, um dos seus interesses principais durante a vida inteira, e o campo no qual faria enormes contribuições para o pensamento humano. O segundo fato pessoal sobre Abelardo que influenciou seu trabalho foi sua própria personalidade simpática e dominante, que atraía a seus pés inumeráveis jovens, alunos de todos os países da Europa. A lógica, a dialética, o pensamento racional e ordenado eram instrumentos que Abelardo usou com audácia, elegância e delicadeza, para descobrir a confusão e contradição reinantes no pensamento da época. Em segundo lugar, Abelardo era homem do mundo, que vivia no mundo; amava-o, compreendia-o; analisava-o; criticava-o. O terceiro fator que influenciou a especulação de Pedro Abelardo foi o amor mútuo entre ele e Heloísa, sobrinha do cônego Fulbert, seu superior eclesiástico, onde Abelardo era mestre. Depois do nascimento de seu filho, eles se casaram secretamente, contra a vontade dela. Mas o cônego contratou malfeitores que atacaram Abelardo e o emascularam. O resultado foi a separação definitiva.

Bernardo de Claraval (1091-1153)

Era nobre; sua família morava na Borgúndia. O pai do filósofo era considerado um dos maiores expoentes daquele espírito de cavalheirismo que caracterizava os nobres da Idade Média. Sua mãe era uma santa mulher de caráter profundamente cristão. Bernardo e seus irmãos foram criados numa atmosfera de fé e de bondade, de interesse pelos outros e de auto-esquecimento, em família onde Deus era real e tomava parte positiva na vida humana. Bernardo era fisicamente fraco; não agüentavam a vida extenuante e as provas e lutas constantes que formavam a base da vida dos nobres da época. Não podendo seguir ao pai, era natural que voltasse seus pensamentos para o campo da mãe, isto é, para a religião. Aos vinte e dois anos tornou-se monge e ingressou no mosteiro mais rigoroso daquela época, Citeaux. Bernardo além de todas as privações do mosteiro, impôs sobre si outras penitências mais severas na tentativa de purificar sua fé e chegar ainda mais perto de Cristo: comia menos e dormia menos do que os outros monges, gastava mais tempo em oração, meditação e exercícios religiosos. Dois anos mais tarde, acompanhado de um grupo de monges amigos, Bernardo, fundou um novo mosteiro num vale quase inacessível, onde construíram uma barraca, da qual surgiu a famosa Abadia de Claraval, e dali originou-se a mais importante das ordens reformistas da Idade Média, a dos Cistercienses. Devido à pureza de seu caráter, ligada à sua capacidade extraordinária, Bernardo de Claraval tornou-se um dos homens mais influentes em toda a Europa, e isto sem nunca sair de seu mosteiro e sem assumir cargo mais importante que o de simples abade de Claraval. Ajudou os pobres e os ricos, solucionou problemas de toda natureza, aconselhou papas, chegou a reprovar reis e imperadores, despertou inumeráveis homens para as cruzadas e para a vida cristã. Entre as obras desse grande homem, encontram-se: 1) Tractatus de Gradibus Humilitatis et Superbiae, uma exposição do regulamento beneditino; 2) Liber de Diligendo Deo, que trata do amor divino, sua medida, seus motivos, seu grau; 3) Tractatus de Gratia et libero Arbítrio, uma discussão do problema do merecimento humano perante a graça divina e 5) Sermones in Cantica canticorum, uma interpretação do livro bíblico Cantares de Salomão. Além de suas obras filosóficas e devocionais, Bernardo escreveu inumeráveis hinos, alguns deles em uso até hoje. Bernardo era líder incontestável da ala mística de seu século e, paralelamente, um dos grandes mestres da introspeção, método que ele pregava para alcançar a Deus.

Alain de Lille (1115-1203)

Conhecido como "o doutor universal", ensinou em Paris e Montpellier. Representa a natureza como jovem virgem, ostentando coroa ornada de pedras, simbolizando os planetas e trajando um manto em que é exaltada toda a variedade de seres. Esse clérigo do século XII reencontra, assim, a velha imagem que Ferecides de Siro, do século VI antes de Cristo, emprestava, possivelmente, dos babilônios. Alain de Lille, utiliza preferencialmente, as imagens do Timeu. A razão está no homem, como o movimento na esfera das estrelas fixas e sensibilidade com suas variedades, como a das esferas oblíquas dos planetas. Um clérigo ortodoxo, como ele, não pode, certamente, divinizar a natureza, e submete-se a Deus. Mas a maneira pela qual concebe as relações de Deus com a natureza é retirada à Teologia de proclo, que conheceu através do livro Causas, traduzido do árabe em meados do século, por ele citado sob o título de Aforismos sobre a Essência do Soberano Bem. Quando ele se refere à natureza: "A operação de Deus é simples e a minha é múltipla", faz lembrar as teorias platônicas, que não lobrigavam entre os diversos níveis da realidade senão a diferença de uma unidade concentrada e uma unidade desenvolvida. Obras: De Arte seu Articulis catholicae fidei, Theologicae regulae.

Guilherme de Conches (1080-1145)

Foi discípulo de Bernardo de Cartres. O que o caracteriza é a distinção radical que faz entre o "trivium" e o "quadrivium". O "trivium" (gramática, dialética, retórica) não é senão um estudo preliminar da filosofia, ao passo que "quadrivium" (matemáticas e astronomia) é a primeira parte da filosofia, da qual a segunda é a teologia.

João de Salisbury (1110-1180)

Uma das personagens mais curiosas dessa época é João de Salisbury. Foi escritor notável, pleno de lembranças da Antigüidade Clássica, não somente de poetas, como Ovídio e Virgílio, mas de Sêneca e, sobretudo, de Cícero, de quem recebeu o conhecimento da moral estóica, ao mesmo tempo que a dúvida acadêmica. Suas duas grandes obras: Metalogicus e Policratus, refletem vivamente todas as preocupações de um grande senhor eclesiástico da época.

Averrois (1126 -1198)

Era juiz e médico. Sua obra principal é um comentário universal sobre Aristóteles, em que o autor incluiu algumas de suas próprias idéias. Para este filósofo, Aristóteles representa a última perfeição do pensamento humano, a autoridade absoluta, e por isso seu sistema segue muito perto ao do grego. O mundo, diz Averrois, é eterno e necessário, portanto, nunca foi criado. Pelo contrário, emanou de Deus. As formas da matéria encontram-se seminalmente na própria matéria, potência universal. Dela o próprio Deus extrai as forças ativas. Desta forma, Averrois nega o panteísmo implícito na teoria da emanação, que seria contrário à sua religião. Paralelamente, ele produz um panpsiquismo que afirma que o entendimento "agente", o intelecto passivo que é o intelecto humano, é distinto da alma e participa de um único Intelecto Ativo, impessoal e eterno. Essa tese retira da alma humana sua parte mais alta e imortal, fazendo dela apenas uma espécie de imagem do Intelecto Verdadeiro. Somente por contanto com este, surge o entendimento potencial dos homens. Depois da morte de um homem, o entendimento de que ele participava volta novamente para o Intelecto Universal. A religião e a fé necessariamente se subordinam a essa razão eterna. Uma das preocupações fundamentais de Avicena foi uma delimitação rigorosa entre a filosofia e a religião.

São Francisco de Assis (1181/2? -1226)

Um paradoxo o acompanha: apesar de deixar poucos escritos que possam ser considerados autênticos e de não ter cultura teológica ou filosófica, foi um dos mais influentes místicos do cristianismo e da vida espiritual de toda Idade Média. Natural de Assis, na Itália, onde passa maior parte de sua vida, Francisco Bernardone, filho de ricos proprietários de terra na região, aos vinte e dois anos fica gravemente doente. Durante a convalescença, tem a primeira das visões: Jesus, no alto da cruz, contempla-o fixamente e fala com ele, Sua vida passa, então, por uma mudança radical: abandona a vida tranqüila e cheia de prazeres que levava, dedicando-se a pregar o amor ao próximo e a humildade como formas de salvação. Logo forma-se um grupo de fiéis seguidores e, em 1210, o papa autoriza a criação da ordem dos franciscanos, inspirada na pregação da humildade, da alegria de viver e da prática da caridade. O amor à natureza e aos animais pregados por São Francisco, e expresso em hinos como O Cântico do sol, é tão puro como o que devota aos homens, embora a intensidade da compaixão pelos homens seja tão intensa, que incorpora o sofrimento alheio, padecendo das dores e aflições por que passam os que o procuram em busca de conforto. São Francisco também teria passado pela experiência da "stigmata", a reprodução, em seu corpo, dos cinco ferimentos feitos de Jesus ao ser crucificado, tão intensa havia sido sua comunicação – quase uma simbiose – com o Filho de Deus.

São Boaventura (1221-1274)

Era italiano, nasceu em Bagnorea. Foi a Paris para estudar, recebendo o diploma de Mestre em Artes, em 1242. Ainda estudante começou a sentir a influência dos Franciscanos; pouco depois de diplomar-se, ligou-se à Ordem e entrou no curso de teologia do qual recebeu seu mestrado. Por alguns anos foi catedrático de teologia na Universidade de Paris, mas foi forçado a renunciar a este posto por sua eleição como Ministro Geral da Ordem dos Franciscanos. Mais tarde, era cardeal em Albano. Suas obras mais importantes são: A Vida de S. Francisco, Comentários a Pedro Lombardo, O Itinerário da Mente para Deus, Sobre a Redução das Artes à Teologia.

Boaventura ensinava que a humildade e a pobreza são essenciais à vida cristã. Essas virtudes necessariamente resultam em uma vida mística. Como todos os Franciscanos de seus dias, Boaventura subordinava a razão à fé, procurando assim corrigir o excessivo intelectualismo que via ao seu redor. A filosofia não deve ser um sistema intelectual teórico e racional. Ela deve ser prática e religiosa, um caminho que leva o homem direta e imediatamente a Deus, presente em tudo o que existe e possuído ou conhecido por uma união mística, não intelectual. Segundo ele, Deus é o criador de toda a matéria. A forma comum de tudo o que existe é a luz; além de sua participação na forma comum, cada ser possui uma forma particular e ainda tantas formas menores quantas sejam suas próprias características essenciais. Para Boaventura, a verdade não pode ser alcançada intelectualmente: é sempre procedente da revelação divina. Deus está eternamente presente na verdade, porque Deus é a verdade. Assim, o saber nada mais é que a união mística do homem com Deus. Embora despreze a razão como via do conhecimento, Boaventura segue as tendências dos seus dias, propondo demonstração racional da existência de Deus. Há três vias pelas quais podemos provar o fato. 1) Em primeiro lugar, a existência de Deus realmente não precisa ser demonstrada em vista de ser a idéia de Deus impressa na própria natureza humana. O homem possui certas características inquestionáveis: o amor à sabedoria, a tendência para a felicidade, a sede de paz. Se Deus é o Sumo Bem, ele é a sabedoria, a felicidade e paz. As tendências mais humanas, portanto, demonstram que a alma do homem é a morada de Deus. 2) Em segundo lugar, sendo Deus real causa das coisas, podemos deduzir sua existência dos efeitos que produz. Se há um ser produzido, há de ter um que o produz, pois o efeito sempre pressupõe a causa. As coisas, sendo imperfeitas, não podem ser causas de si mesmas. Ao mesmo tempo, o mero fato delas serem imperfeitas já exige um ponto de comparação, isto é, um ser perfeito. Toda natureza, portanto, proclama a existência de Deus. 3) Em terceiro lugar, se partirmos da idéia de Deus para determinar se existe ou não, perceberemos que sua existência se torna imediatamente evidente. Por definição, Deus é o próprio SER, do qual nada pode ser maior. Logo ele não pode não existir. O fato de haver um juízo por nossa parte exige de imediato a existência do teor o juízo.

São Alberto Magno (1206-1280)

O primeiro dos grandes peripatéticos cristãos é o dominicano Alberto magno, o "doutor universal". Não é somente o professor de teologia que ensinou em Paris, de 1245 a 1248, e foi leitor em Colônia, de 1248 a 1260 até sua morte. A partir de 1250 escreve paráfrases de todos os tratados conhecidos de Aristóteles, neles intercalando até mesmo conceitos próprios acerca de questões inclusas no plano de Aristóteles, mas que haviam sido negligenciadas por ele (como o De Mineralibus), e acrescentando um comentário sobre o apócrifo livro De Causis (que sabia não ser de Aristóteles, mas um extrato feito por Davi, o judeu, dos escritos de Aristóteles e Avicena). É autor dos tratados de teologia dogmática, como o Comentário às Sentenças e Suma sobre as Criaturas, e de escritos místicos, como o comentário do pseudo Dionísio. A doutrina de Alberto indica hábitos de espírito bastante novos em relação ao agostinianismo reinante. Obras principais: Comentários das Sentenças, Summa de Creaturis, De Adhaerendo Deo e Suma de Teologia.

Siger de Brabant (1235-1284)

Era francês, professor da Universidade de paris, foi o maior expoente do culto quase idolátrico para com Aristóteles, que foi identificado com a razão humana e preferida à razão cristã. Fundamentalmente, Siger aceitava o pensamento de Averrois, o que o colocou em oposição direta à maioria de seus contemporâneos, em especial a seus colegas da Universidade. Foi campeão inequívoco da autonomia absoluta da razão pura, livre de qualquer influência ou limitação teórica. O sábio é o verdadeiro profeta, diz Siger. Portanto, "seja alerta, estude, leia e se ainda permanecer em você qualquer dúvida, que ela sirva para estimulá-lo a um estudo ainda mais profundo, pois uma vida sem conhecimento é a morte, o túmulo de um ser interior". Se existe uma razão absolutamente pura, há certos fatos que ela claramente reconhece. Em primeiro lugar, não há diferença entre SER e EXISTÊNCIA. Se não existisse nenhum homem ou entidade individual, portanto um SER, a própria natureza humana (essência) também deixaria de existir. É evidente, portanto, que a existência e o SER são inseparáveis. O mundo, então, sempre existiu, é eterno. Não pode, por isso, Ter sido criado por Deus, visto que a idéia de criação implica em início. Da mesma forma, o mundo é indestrutível em todas as duas facetas. O SER é necessário e eterno. Siger aceitava a antiga teoria cíclica da história. Tudo o que ocorre é realmente uma repetição, tanto no caso individual, com também de religiões, de sistemas políticos, de códigos legais, etc. O mundo, dizia Siger, funciona sobre seu próprio mecanismo, sem nenhuma interferência exterior. A matéria, o tempo e o movimento, como partes do universo, são eternos.

Henrique de Gaud (falecido em 1293)

O agostinismo antitomista é representado por este grande mestre, "o doctor solemnis", professor de teologia, em Paris, 1277, e falecido em 1293. Para Henrique de Gand, a finalidade da vida não é, como em Santo Tomás, o conhecimento de Deus, mas a união com Deus ou o amor. A vontade, que é a faculdade de desejar ou amar, tem, pois, um fim superior ao da inteligência e válido por si. Não é, porém, como pensa Tomás de Aquino, a inteligência que impõe à vontade o fim que ela persegue.

Moisés Bem Maimon (1135-1204)

Moisés Bem Maimon, comumente chamado Maimonides, nasceu em 1135 em Córdoba, cidade dominada naquela época pelos árabes. Era judeu, de família devota, que gozava alta posição social entre os árabes de sua cidade. Maimon, o pai do filósofo, era juiz, matemático, astrônomo, sábio de renome e membro do colégio rabínico de Córdoba. O pai, segundo o costume judaico, iniciou a instrução de seu filho nessas ciências, bem como na religião de seu povo. Mais tarde, Maimonides estudou filosofia com dois mestres de Córdoba: Averrois e Ibn Tufail. Em 1148, Córdoba caiu nas mãos dos Almoadas, seita muçulmana intolerante e iniciou-se um período de perseguição sangrenta de judeus e cristãos. Maimon fugiu com seus dois filhos e uma filha. Nos próximos anos, a pequena família peregrinou de um lugar para outro, e finalmente estabelecendo em Cairo, onde Maimonides estudou medicina. Começou a praticar a profissão após a morte do pai e do irmão mais velho, como meio para sustentar a sua irmã. Além de inumeráveis cartas, tratados e ensaios, Maimonides produziu duas obras monumentais: O Mishneh Torah e o Guia dos Extraviados. O primeiro é uma espécie de compêndio do Talmud: deu ao filósofo ampla oportunidade de demonstrar seu gênio, seu pensamento filosófico e suas doutrinas éticas, pois, ao interpretar uma lei talmúdica, era necessário exercer seu julgamento pessoal, decidir se a lei em pauta deve ser levada literal ou figuradamente, se representava a opinião da maioria ou de uma minoria dos sábios e se teve a intenção de ser permanente ou transitória. O Guia dos Extraviados tem o objetivo de fornecer diretrizes para os perplexos, isto é, "aos pensadores", cujos estudos lhes colocaram em conflito com a religião "que estudaram a filosofia e adquiriram conhecimento adequado, mas que, embora firmes em questões religiosas, se acham perplexos e desnorteados pelas expressões ambíguas e figuradas, encontradas nas escrituras".

Tomás de Aquino (1225-1274)

Nasceu em Castelo de Roccasecca, perto de Aquino, no Reino de Nápoles. Era de família feudal, nobre, aliada ao Imperador e inteiramente devotada à sua causa. A educação do menino foi nitidamente religiosa. Aos cinco anos de idade, ele ingressou no célebre mosteiro de Monte Cassino, onde permaneceu durante nove anos e de onde saiu para matricular-se na Universidade de Nápoles para o estudo da filosofia. Ali foi grandemente influenciado pela nova ordem dominicana. Contrariando completamente a vontade de seus parentes, Tomás renunciou a toda riqueza familiar e tomou o hábito dessa ordem. Patrocinado pelos dominicanos, continuou sua educação nas Universidades de Paris e Colônia, diplomando-se em Doutor em Teologia, em 1257. As obras de Tomás se dividem em quatro grupos, como segue: 1) Um grupo de comentários, em que o autor expõe seu pensamento sobre a física, a metafísica, a lógica e a ética de Aristóteles, à Sagradas Escrituras, a Dionísio pseudo-aeropagita; aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo, bem como de alguns filósofos mais recentes. 2) Há dois livros geralmente chamados "AS SUMAS": A Suma Teológica, começada em 1265, ficando inacabada devido à morte prematura do autor, e a Suma Contra os Gentios, baseada substancialmente em demonstrações racionais. 3) Uma série chamada de "Questões": Questões Disputadas (Da Verdade, Da Alma, Do mal, etc.) e Questões Várias, 4) Um grande número de trabalhos pequenos chamados "Opúsculos" (Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas, Da Eternidade do Mundo, etc.). Todas as obras desse filósofo demonstram uma serenidade de fé e caráter e uma tranqüilidade de espírito, que evidentemente eram características da personalidade do autor. Para Tomás de Aquino, a filosofia é uma ciência teórica, distinta da teologia, que é matéria revelada. A filosofia é racional: existe para resolver o problema do mundo. A distinção entre a filosofia e a teologia se aplica à teoria – ao conteúdo – bem como aos seus métodos. O conhecimento tomista é empírico e racional, destituído de iluminação divina, sem a intuição imediata do verdadeiro. Há dois momentos no conhecimento: o sensível e o intelectual. não existe qualquer conhecimento inato, nem independente da experiência sensível: o primeiro passo necessariamente é esse. Segundo ele, a primeira tarefa do filósofo cristão deve ser definir e delimitar o domínio da razão a fim de justificar o uso do método racional. Em oposição ao antiintelectualismo dos místicos, tais como Bernardo de Claravel, Tomás afirmava a possibilidade de demonstrar as verdades religiosas pelo uso da razão. A tarefa do filósofo cristão, diz ele, depende de aceitação prévia dos grandes princípios da fé. Sem este alicerce, ele não pode funcionar . Primeiramente ele distinguiu entre a filosofia e a teologia: a filosofia é aquilo que se pode comprovar pela luz da razão; a teologia se alicerça unicamente na fé. A metafísica tomista se divide em duas partes ou dois momentos: 1) Metafísica Geral – ou ontologia – tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. 2) A Metafísica Especial, que estuda o ser em duas grandes especificações: Deus, o espírito, o mundo. Daí temos a teologia racional – assim chamada para distingui-la da teologia revelada; a psicologia racional (racional, porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica, que é ciência experimental); a cosmologia ou filosofia da natureza, (que estuda em suas causas primeiras, ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas). O princípio básico da ontologia tomista (nitidamente aristotélico) é a especificação do ser em potência e ato. Ato significa realidade, perfeição; potência quer dizer não-realidade, imperfeição (relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição, capacidade de concretizar-se). Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser, que depende do ser que é ato puro; este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser.

A metafísica especial de Tomás de Aquino pode ser chamada teologia racional. É uma descrição de deus em todas as suas manifestações. Todos os outros filósofo partem da idéia de deus para chegar à realidade. Ou seja, seus sistemas movem-se do "logos" para o "ontos". Tomás fez o contrário. Ele partiu da realidade e, baseado nessa, conceituou Deus.

A moral tomista é intelectualista: a ordem moral não depende da vontade arbitrária de Deus e sim da necessidade racional da divina essência. A ordem moral, então, é inseparável da natureza humana: o homem é ser racional, portanto, agir moralmente é agir racionalmente.

A ESCOLÁSTICA PÓS-TOMISTA

Tendo chegado ao seu auge com Tomás de Aquino, a escolástica só poderia decair. No sentido externo, foram causa da decadência: a Guerra dos Cem Anos, uma epidemia de peste bubônica; o cismo definitivo entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente; a multiplicidade de novas universidades. No sentido interno: as crescentes exigências doutrinárias dentro das ordens religiosas, que tolhiam o pensamento livre e um conseqüente desconhecimento dos grandes filósofos do passado, talvez produzido propositadamente pelos líderes da Igreja a fim de manter o domínio absoluto sobre o pensamento e a atividade do clero e dos cristãos em geral.

Roberto Grosseteste (1168-1253)

Foi o primeiro grande filósofo da linha prática e empírica oxfordiana. Ele nasceu em Stradbroke, Suffolk. Sua vida se divide em duas partes distintas. Sua mocidade foi essencialmente acadêmica. Fez curso superior em Oxford e ao terminar seus estudos permaneceu na Universidade como professor. Alguns anos depois fez mestrado em Teologia na Universidade de paris e depois voltou à Inglaterra, dentro em breve foi eleito Chanceler de Oxford. Em sua posição de liderança dirigiu os interesses dos franciscanos ingleses para o estudo da Bíblia, paras as línguas e, especialmente para a matemática e as ciências naturais. Sob sua direção, Oxford se estabeleceu como um centro onde irradiava a luz do pensamento grego e a razão pura. Nesse período, o filósofo escreveu alguns comentários às obras de Aristóteles e comentou também os livros do Pseudo-Dionísio bem como da Bíblia. No mesmo período produziu uma série de tratados independentes, em geral, de natureza científica, comumente agrupados sob o título de Opuscula Philosophica.

O segundo período da vida de Roberto Grosseteste foi dedicado mais diretamente à Igreja: foi bispo de Lincoln e estadista eclesiástico de renome. Sua maior contribuição à filosofia foram traduções de obras antigas. Em geral , o pensamento de Roberto Grosseteste é uma união de idéias aristotélicas e neoplatônicas. Em todo o seu trabalho ele demonstra uma curiosidade enorme sobre a natureza e uma procura excepcional por um sistema racional das coisas divinas e humanas. A filosofia de Grosseteste centraliza seu pensamento sobre a luz. Esta é a primeira forma corpórea que se une com a matéria-prima aristotélica para formar uma substância simples, sem dimensões. Ele usa esta propriedade da luz para explicar o processo pelo qual uma substância composta de forma e matéria não dimensionais adquire tridimensionalidade, isto é, a extensão da matéria em três dimensões e as características do espaço se determinam pelas propriedades da luz e de suas leis operacionais. Ele estendeu seu conceito de luz para o mundo espiritual também. Deus é luz Pura, Luz Eterna, embora não no sentido corpóreo. Os anjos também são luz incorpórea, participantes da luz eterna.

Rogério Bacon (1210-1294)

Estudando a mescla de sabedoria árabe, judaica e cristã, encontrada no sul da Europa de seus dias, Bacon chegou a conclusão de que não poderia haver uma teologia verdadeira sem o conhecimento e entendimento da ciência natural. A influência do judaísmo e Islamismo em seu trabalho foi enorme: seus livros demonstram claros tomes do pensamento racional desses dois grandes povos. O alvo de Rogério Bacon era o conhecimento total e absoluto pelo qual o Cristianismo seria purificado e transformado e que levaria a conversão do mundo inteiro o pensamento cristão. Com este fim em vista gastou longas horas do estudo de relatórios preparados por colegas franciscanos, cujo trabalho os levaria à Ásia ou outros lugares longínquos. Chegou a sugerir ao Papa Clemente IV o levantamento topográfico do mundo sob seu domínio – ou mesmo o que ele não dominava – a fim de planejar uma campanha evangelizante que acabaria pela cristianização universal. Rogério Bacon imaginou o mundo técnico do futuro: navios sem remadores, submarinos, automóveis, aviões e mecanismos que permitiriam ao homem andar por cima da água. As idéias filosóficas de bacon se prendem semelhantemente à experiência. Estudando o pensamento aristotélico e a síntese tomista, Bacon chegou à conclusão de que o silogismo jamais nos levará ao saber. A fim de chegarmos ao conhecimento perfeito das coisas, isto é, à verdade, ser-nos-á imprescindível a observação e a experiência. Com base nisso, Bacon chegou à conclusão de que tudo o que existe tem natureza composta: é, ao mesmo tempo, matéria e forma. A forma é a ess6encia; a matéria é o princípio que a limita e lhe dá multiplicidade.

Raimundo Lúlio (1235-1316?)

A obra imensa e ainda incompletamente estudada de Raimundo Lúlio é testemunho das preocupações dominantes do século XIII. Suas obras, escritas em catalão ou em latim (se existiram, as obras árabes desapareceram), estão todas a serviço do mesmo fim prático, a que visa, também por atos e uma propaganda infatigável : estabelecer sobre a terra inteira a catolicidade, considerada idêntica à razão. Abandona mulher e filhos para dedicar-se inteiramente a sua missão. Em 1290, propõe ao papado um plano de cruzada e missão nos países infiéis. Entre 1310 a 1311, residem em Paris, onde escreve grande número de tratados (ainda manuscritos) contra os averroístas. Viaja para a África do Norte a fim de converter pacificamente os infiéis, dos quais não se livrou de maus tratos e retornou a Maiorca, onde morreu em 1316. Esse homem tão ardentemente devotado a uma tarefa prática, místico, cuja atividade teve por começo certa visão, e que escreveu Diálogo e Cânticos de Amor entre o Amigo e o Amado é autor da famosa Arte Magna, que tem, de acordo com o desejo geral de sua vida, caráter prático, mais do que teórico. Como todos os que na Idade Média quiseram combater os infiéis ou os heréticos, e segundo a tradição de todo o século XII, Raimundo Lúlio procura "provar os artigos de fé por razões necessárias". A serviço de tal fim, põe sua Ars generalis ou Arte Magna, que deve, segundo sua intenção, ser bastante popular e de fácil acesso, para proporcionar mesmo às pessoas comuns, os meios de defender a fé. Uma religião universal, apoiada num método de pensar, igualmente universal, eis a idéia que Lúlio faz da catolicidade. As cinco visões de Cristo que teve, e que narra com grande beleza poética, valeram-lhe o título de Doutor Iluminado. Sua tese de que filosofia e teologia são disciplinas afins, podendo, por isso, a lógica provar a natureza da fé, custou-lhe um grande número de adversários.

Mestre Johann Eckhart (1260-1328)

Sua grande importância no contexto da história do cristianismo decorre principalmente do fato de que provavelmente de nenhum outro pode-se dizer que fez da aliança entre o sentir e o pensar o pilar de toda a sua reflexão, amarrando o que parece impensável: lógica e misticismo. Lendo os escritos confessionais dos místicos fica clara a predominância do sentimento sobre a razão, da emoção sobre a lógica, ou seja, a experiência mística passa longe de qualquer explicação que não se encontre na plenitude do sentimento. Eckhart, por sua vez, foi o que se pode chamar de pensador, alguém que conseguiu por meio da reflexão filosófica rigorosa, em que é marcante a influência de Santo Agostinho e do neoplatonismo, chegar à transcendência divina, enquanto sua concepção de misticismo aponta para a imanência divina. Entre seus leitores entusiasmados encontram-se Hegel e Schopenhauer. Natural de Hochhein, na Turíngia, é um noviço dos dominicanos quando é chamado para Colônia para cursar teologia, aprofundando-se no estudo da escolástica, notadamente de Alberto Magno e Tomás de Aquino. Depois de receber o priorato em Erfurt, termina seus estudos na Universidade de Paris, recebendo o título de doutor em teologia em 1302, transferindo-se logo depois para Estrasburgo, onde obtém enorme prestígio como pregador. Julgado por um tribunal eclesiástico por heresia, morre antes de receber o veredicto de condenação a algumas de suas teses. Defendendo-se da acusação, feita em bases confusas e contraditórias, disse que seria capaz de errar, mas não de cometer heresia porque "o erro depende da compreensão, e a heresia, depende da vontade". Seus grandes temas são: Deus ( o puro SER, a realidade absoluta) e a alma. Uma das suas afirmações que lhe valeram a acusação de herege foi a de que Deus é inqualificável, ou seja, "não é bom, nem melhor, nem o mais perfeito, pois se alguém disser que Deus é bom é o mesmo que dizer que preto é branco". Para ele, Deus está acima de qualquer conceito ou definição e, portanto, é impossível de ser conhecido por meio de palavras. Mas pode ser conhecido quando a alma atinge o estado de "centelha" ou iluminação. A distinção que faz entre Deus e Divindade é um dos principais temas da sua obra (Livro do conforto divino, Do nascimento eterno, Os Sermões); enquanto Deus é uma manifestação da natureza divina, a revelação na forma de uma Pessoa, a Divindade é irrevelante e irrevelável, uma potencialidade acima de qualquer distinção. Os escritos de Eckkhart – uma fusão harmoniosa entre filosofia e mística – oferecem ao leitor atento uma aventura intelectual e espiritual de primeira categoria, embora ele próprio (como tantos outros místicos) desconfiasse da linguagem convencional para transmiti-la. Como disse Reiner Schümann: "cada linha de Eckhart testemunha o embaraço da inadequação fundamental da língua perante a alegria experimentada".

Fez seus estudos em Paris, onde se tornou mestre em artes em 1300. Torna-se conselheiro do papa Bonifácio VII. É nomeado provincial dos dominicanos para a Saxônia , em 1304, depois vigário geral para a Boêmia, em 1307. Ensina em seguida em Paris, depois em Estrasburgo. Sua obra principal: Opus Tripartitum.

John Duns Scotus (1270-1308)

O maior escolástico pós-tomista e o mais importante filósofo inglês da idade Média foi, indubitavelmente, John Duns Scotus, às vezes chamado Doutor Subtilis. Ele tomou o hábito dos Irmãos Menores em 1280 e onde anos depois foi ordenado padre. Pouco sabemos sobre sua vida acadêmica: parece que estudou em Oxford e depois na Universidade de paris. Obras filosóficas: Quaestiones Super Universalia Porphyrii; Quaestiones Super Livros Aristotelis de Anima; Quaestiones Subtiliddimae in Metaphysicam Aristotelis; Tractatus de Primo principio. Obras teológicas: Theoremata, Opus Oxoniense, Reportata Parisiensia, Quadlibeta, Collationes. Scotus foi, ao mesmo tempo, intelectual e místico. Procurou substituir a iluminação mística dos filósofos anteriores pela luz natural do SER, a fim de combater o falso misticismo dos padres de seus dias. Demandando pureza intelectual absoluta, Scotus por outro lado exigia a pureza de coração. Seus trabalhos demonstram um amor místico fora do comum. Deus, o Uno, que é o primeiro princípio, se declara na Trindade. A Trindade exige do homem o uso de seus intelecto e a plenitude de seu amor. É necessário notar o peso enorme que a filosofia de Scotus coloca sobre os ombros do ser humano. Como sacrifício a Deus, ele tem que constantemente renovar sua mente e seu espírito. Ele precisa se educar à humilde aceitação das leis autônomas e por demais exigentes da natureza e da ordem moral, ao mesmo tempo em que se entrega completamente a amar a Deus e a seus semelhantes, embora separado deles por um enorme abismo. Scotus encontrou na adoração ã Virgem Maria a maneira mais eficaz de aproximar-se de Deus e do homem.

Guilherme de Ockham (1285-1350)

Foi discípulo de Duns Scotus, mas demonstrou ser mais radical que seu mestre e teve a ousadia de se opor a ele. Foi franciscano, que começou sua carreira em Oxford e em seguida passou para a Universidade de paris. Mas, não prosseguiu seus estudos, conservando sempre o título de inceptor. Esse fato se devia em geral à natureza de sua especulação, que foi considerada herética. Suas obras especulativas mais importantes foram: Comentários às Sentences de Pedro Lombardo, Sete Várias Questões, Suma de Toda a Lógica e Centrilóquio Teológico. No esquema de Ockham, Deus não tem nenhuma relação com as atividades humanas. Ele é o "completamente outro", infinitamente remoto, incompreensível, inaproximável, totalmente separado dos afazeres humanos, em especial das atividades e política eclesiásticas. Sendo assim, os teólogos passados ou presentes de maneira nenhuma podem caracterizá-lo. A teologia é fictícia, é uso inútil das palavras, é auto-engano. Deus escapa ao conhecimento humano.

CONCLUSÃO

Em primeiro lugar, a filosofia medieval teve uma relação muito estreita com a teologia, especialmente no início do período. Nos primeiros séculos da nossa era, não havia filosofia no sentido moderno, isto é, como uma ciência autônoma, distinta da teologia. Os padres apostólicos claramente conheciam a diferença entre a razão e a fé, entre conclusões científicas e revelação. Mas seu propósito nitidamente se relacionava com a Igreja. Queriam organizar sua fé, dádiva revelada , e levá-la para os confins da Terra. Os mais instruídos deles conheciam a filosofia antiga e utilizaram em seus sistemas, mas sempre com novas interpretações, para comprovar seu ponto de vista especial. O uso da antiga idéia do LOGOS foi exatamente este.

Os apologistas procuravam demonstrar o caráter razoável do Cristianismo e empregavam a razão para demonstrar suas teses. De certa forma seus argumentos são filosóficos, certamente mais que os de seus antecedentes, mas novamente, seu propósito era comprovar um ponto de vista predeterminado e quase todos eles consideravam a filosofia perversão da verdade e o filósofo o inimigo do Cristianismo real.

Foi somente com Agostinho, quatrocentos anos depois de Cristo, que o pensamento medieval começou lentamente a princípio, a se desprender do puramente religioso à procura de uma "filosofia" verdadeira. De início os pensadores queiram apenas a filosofia da vida espiritual e grande parte do seu esforço foi utilizado na conciliação da revelação divina com as aquisições da razão. Mas pouco a pouco começaram a questionar o mundo a seu redor e a desenvolver sistemas de filosofia natural que formam, sem dúvida alguma, o alicerce para a visão moderno do universo.

Se a especulação medieval foi real contribuição ao nosso pensamento, será conveniente tentar seguir alguma das principais linhas filosóficas para ver até onde chegam em tempos modernos. Se começamos com a especulação platônica e neoplatônica, haverá uma linha cristã essencialmente teológica, de Agostinho para, de um lado, os racionalistas, como Anselmo, Abelardo e Boaventura e de outro lado, os grandes místicos, como Bernardo de Claravel. Suas idéias predominam na Igreja Católica até hoje e, é fácil ver como traços delas em todas as teologias protestantes. Isto significa que a teologia cristã dos nossos dias, embora tenha sentido claras influências de outros ramos especulativos, nos vem diretamente de Santo Agostinho. Na idade Média houve três grandes sínteses que uniram o pensamento do Areopagita com a teologia das três grandes religiões: Islamismo, feito por Avicena; Judaísmo, por Maimonides e Cristianismo, por Tomás de Aquino. Essa última nos interessa mais que as outras, por trata-se de pensamento ocidental. Primeiramente, a reação inglesa ao tomismo deu origem à linha empírica que começou com Grosseteste e terminou com os empiristas do século XVII: Locke, Hume, etc. Por outro lado, o racionalismo de Tomás tem seu discípulo mais forte em Descartes. Essas duas linhas, o racionalismo e o empirismo, foram sintetizadas por Emanuel Kant, no século XVIII.

Tudo isso significa que direta, ou indiretamente a influência da Idade Média em nosso pensamento foi enorme. Repitamos algo que dissemos no início: se é fácil criticar a especulação medieval do nosso ponto de vista essencialmente científico, lembremo-nos de que os homens da Idade Média não possuíam nossa mentalidade, nossa experiência, nossa história, nem tampouco nossas necessidades e certamente não se dirigiam por nossa interpretação de vida. Mas a Idade Média foi um período da história humana, uma época pela qual o mundo passou: seu pensamento necessariamente se adaptou às condições de então. Nenhum período histórico é dispensável: a história é uma corrente e cada elo é ligado inseparavelmente aos anteriores. Isto quer dizer que a filosofia medieval constitui uma fase pela qual o pensamento teve que passar, a fim de chegar em nossos dias. E, quando estudamos o período com algum detalhe, descobrimos que foi realmente uma fase gloriosa.

BIBLIOGRAFIA

1. PETERSON, Marianna Allen. Introdução à Filosofia Medieval. Edições UFC, Fortaleza- CE, 1981

2. CHÂTELET, François. A Filosofia Medieval. Zahar Editores (tradução de Maria José de Almeida), Rio de Janeiro-RJ, 1983

3. BRÉHIER, Émile. História da Filosofia Medieval. Editora Mestre Jou (tradução de Eduardo Sucupira Filho), São Paulo-SP, 1979

4. ISMAEL, J. C. Iniciação ao Misticismo Cristão. Record, Rio de Janeiro- RJ, 1998

5. URBANO, Zilles. Teoria do Conhecimento. EDIPUCRS, Porto Alegre-RS, 1994

6. ETIENNE, Gilson. A Filosofia na Idade Média. Martins Fones (tradução de Eduardo brandão), São Paulo, 1998

Filosofia Cristã

CONCLUSÃO

Finalmente conclui-se este ciclo de estudo de Filosofia Cristã. Esperamos que o conteúdo tenha enriquecida os conhecimentos sobre o tema estudado.

Sabemos que o assunto é muito vasto e que o material não se propôs a esgotá-lo, mas de modo simples, informar educando através deste texto.

Esperamos tê-lo ajudado nesta área do conhecimento.

AVALIAÇÃO DE FILOFOFIA CRISTÃ

Professor Rev. Antonio Patativa

1 – É possível a fé estar associada à razão, e vice-versa ?

2 – O que é fé ? O que é razão ? Como conciliá-las ?

3 – Descrever aspectos históricos da chamada Idade Média.

4 – Por que a Idade Média e chamada de Idade das Trevas ? Você concorda com essa classificação. Explique , por quê ?

5 – O que era a teologia escolástica ? ( procure fontes extra – apostila)

6 – Fale sobre cada uma das características ( com suas palavras) da Filosofia Medieval, de acordo com a listagem da apostila.

7 – Escolha um dos pais (padres) do período patrístico e escreva um texto ( no mínimo 4 páginas) sobre sua vida, seu pensamento, a influência que recebeu e exerceu na Igreja. (Obs. Não fazer sobre Paulo ou João; os demais padres podem ser encontrados em livros de História da Igreja).

8 – O que caracterizou o fim de período patrístico ?

9 – Escolha um dos pensadores do período escolástico e escreva um texto ( no mínimo 4 páginas) sobre sua vida… ( seguir modelo da questão nº 7).

10 – Fazer um resenha ( Obs. Resenha não é resumo), do texto “O Pluralismo do Pós-Modernismo”, de Héber Carlos de Campos.

One thought on “Introdução a Filosofia Cristã

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