ANALISE DA LITERATURA PROFETICA

PREFÁCIO A ANALISE DE LITERATURA PROFETICA

Uma surpreendente porção da Bíblia (27%), trata de previsões acerca do futuro, mesmo que a função da previsão seja um aspecto menos proeminente entre os profetas do que aquela da proclamação. Esse tipo de profecia não é "História já escrita", mas apresenta características como inteligibilidade, definição e unidade orgânica.

Apesar do aforismo popular de que os "profetas escreviam mais do que sabiam", a compreensão que os próprios profetas tinham de suas profecias é demonstrada por meio de sua consciência è(1) dos resultados de suas palavras; è(2) das implicações de suas profecias; è(3) do conhecimento de coisas que eram humanamente impossíveis de conhecer; e è(4) da relação que os acontecimentos e circunstâncias contemporâneas tinham com uma série de acontecimentos futuros.

Há três tipos de profecia: condicional, incondicional e seqüencial. Cada profecia deve ser interpretada de acordo com seu tipo para que a análise não se torne confusa.

Para expressar o futuro, os profetas usavam termos, acontecimentos e pessoas do passado. Também empregavam várias expressões proféticas para marcar a presença de uma passagem sobre o futuro. Isso não levava a uma interpretação de "duplo sentido" da profecia, mas sim a um sentido único e complexo em que o "já cumprido" e o "ainda não cumprido" eram vistos como partes claras de um significado completo, ligado, em seu ínterim, a uma série de cumprimentos múltiplos.

E quanto ao futuro?

O SIGNIFICADO DA PROFECIA

O tópico da profecia com freqüência àproduz dois tipos de reações extremas nos leitores e intérpretes: o assunto é totalmente evitado ou visto com apatia ou então é transformado em uma brincadeira. Essas duas reações são inadequadas e carecem do equilíbrio que é apresentado no texto bíblico.

A profecia é um gênero bíblico mais amplo do que a maioria das pessoas pensa. Muitos ligam a palavra profecia à idéia de futurologia. Mas, em sua grande parte, tanto a profecia dos profetas mais antigos (Josué, Juizes, Samuel e Reis), quanto dos profetas mais recentes (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel e os doze profetas menores) e dos profetas do Novo Testamento, na verdade envolve os mensageiros de Deus na proclamação da palavra do Senhor para a cultura contemporânea que precisava ser mudada, a fim de deixar de resistir à palavra de Deus. Nesse sentido, esses profetas eram "proclamadores".

O aspecto da profecia que é mais difícil de ser interpretado é aquele que trata da previsão. O número de previsões sobre o futuro dentro da Bíblia é tão grande em ambos os Testamentos que serve de repreensão silenciosa a qualquer um que hesite em estudar essas previsões.

De acordo com os cálculos de J. Barton Payne, há 8.352 versículos que contêm algum tipo de previsão, dentro de um total de 31.124 versiculos na: Bíblia toda – a surpreendente porção de 27% da Bíblia trata de previsões futuras. Payne calculou que o Antigo Testamento contém 6.641 versiculos sobre o futuro (de um total de 23.210 versículos, ou seja.28,6%), enquanto o Novo Testamento apresenta 1.711 (de um total de 7.914, ou seja.21,6%). Ao todo, esses 8.352 versículos discutem 737 diferentes tópicos proferi, únicos livros que não contêm previsões são Rute e Cantares no Antigo Testamento e 3 João no Novo Testamento. Os outros 62 livros da Bíblia aparecem uma ou mais vezes dentro dos 737 tópicos reunidos por Payne.77

Os livros do Antigo Testamento com a mais alta porcentagem de profecias acerca do futuro são Ezequiel, Jeremias e Isaías, com respectivamente 65, 60 e 59% de seu total de versículos. No Novo Testamento, os três primei -ros são Apocalipse, Mateus e Lucas com 63,26 e 23% respectivamente de seu .conteúdo total.

Assim, fica claro que a profecia sobre o futuro não pode ser vista superficialmente, se queremos fazer justiça à Bíblia da forma como Deus quis compô-la. Qualquer declaração da Palavra de Deus como um todo precisa interagir com esses temas proféticos em uma escala relativamente grande, tendo em vista que aproximadamente um quarto dos versículos da Bíblia dizem respeito a esse tópico.

As Características da Profecia Bíblica

As profecias bíblicas têm o seu próprio conjunto de características e aspectos que a distinguem de qualquer imitação. Na virada do século, Robert B. Girdlestone tratou dessa questão, enumerando as seis características seguintes:

  1. A profecia bíblica prevê de maneira clara as coisas que estão por vir, sem envolvê-las em ambigüidades como faziam os oráculos das nações pagas.
  2. A profecia bíblica é planejada para ser uma previsão e não uma declaração retrospectiva, uma profecia não-intencional, ou uma adivinhação que por um acaso acabou acontecendo.
  3. Ela é escrita, publicada ou proclamada antes da ocorrência do acontecimento a que se refere e de um modo que não poderia ter sido previsto pela simples sagacidade humana.
  4. Ela é cumprida subseqüentemente, de acordo com as palavras da previsão original.
  5. Ela não causa o seu cumprimento, porém mantém-se como testemunha até que o acontecimento tenha ocorrido.
  6. Uma profecia bíblica não é uma previsão isolada, mas pode estar relacionada a outras profecias, formando, portanto, uma longa série de previsões.78

É claro que nem todas as profecias encaixam-se em todas as categorias acima. Mas, mesmo onde há exceções, elas ainda apresentam o ímpeto e o espírito de todas as seis descrições. Agora, examinaremos em mais detalhes algumas das características da profecia bíblica.

INTELIGIBILIDADE

Uma expressão popular diz que a profecia é "História já escrita". Se, literalmente, isso fosse verdade, a profecia seria tão óbvia e clara quanto escrever História. Mas a profecia possui um certo aspecto enigmático, até mesmo quando Deus fez conhecer sua palavra a Moisés em Números 12.6-8. Nesse texto, é dito que Moisés tem duas vantagens claras em relação aos outros profetas que vieram depois dele. Em primeiro lugar, Deus falou diretamente com Moisés ("de sua própria boca, claramente"), enquanto falou a outros profetas de forma menos clara (por exemplo, por enigmas). Em segundo lugar, Deus apareceu pessoalmente a Moisés, enquanto ele revelou-se a outros profetas por meio de sonhos e visões. Esses fatores certamente marcam um contraste entre a clareza, facilidade de interpretação e definição daquilo que é observado em Moisés e aquilo que é visto nos outros receptores de profecias da Bíblia.

Essa admissão, porém, não deve ser levada ao extremo de afirmar que não se pode compreender nada do material profético até que Deus valide a palavra proclamada por seu servo por meio do cumprimento da profecia. Normalmente, usamos de maneira equívoca a palavra completamente quando afirmamos que: "uma profecia não é feita para ser completamente compreendida antes de seu cumprimento." É claro que essa é uma afirmação verdadeira, mas também redundante. Naturalmente, a prova está no resultado final.

Toda profecia tinha a intenção de comunicar uma compreensão adequada do futuro para os ouvintes que a recebiam, mesmo que fosse apresentada sob a forma de um enigma, viesse acompanhada de símbolos, envolta em uma visão e não fosse completamente clara. Tais observações levam a longas discussões e debates para determinar se as profecias devem ser entendidas "literalmente", "figuradamente" ou "espiritualmente".

O que significa uma visão literal? Raymond Brown a define como sendo "o sentido que o autor desejava passar e que é transmitido por meio de suas palavras".79 Apesar de a profecia, de fato, usar mais a linguagem figurada -incluindo símbolos, figuras de linguagem, alegorias e parábolas – do que as narrativas ou a prosa didática, isso não significa que as palavras ou termos usados são menos literais. Deve-se partir do pressuposto de que há um sentido gramatical, simples e direto antes de se buscar o que está "contido dentro de" ou "encaixa-se em" ou é "baseado em" alguma outra coisa além do sentido literal.

Assim, é preferível procurar entender a profecia em sua forma natural direta e literal. Mas deve-se ter em mente que "literal" aqui significa que as palavras devem ser compreendidas de acordo com o seu sentido gramatical filológico normal; aliás, esse é o significado clássico do método de interpre tação gramático-histórico. Apesar de uma boa parte das palavras ser do tipo figurado, elas não são menos significativas simplesmente por serem figuradas pois, ainda assim, o autor queria dizer alguma coisa ao usar essas palavras.

A questão do chamado "sentido espiritual" é muito mais complexa. Esse sentido normalmente não é determinado de maneira explícita por meio das intenções do autor ou pelo fato de a linguagem figurada ser usada nas profecias. É comum dizer que esse sentido está nas entrelinhas e que não é identificável pela gramática do versículo em si. Sob um outro ponto de vista. ele é primeiramente identificável no Novo Testamento e depois revisado como um novo valor dado a uma antiga leitura. Nesse sentido, portanto, tais releituras de antigos valores surgem de pressuposições que a pessoa trouxe para dentro da passagem baseando-se em suas próprias referências teológicas. (O problema, entretanto, não está no fato de que o intérprete possui uma série de pressuposições, ou em sua "espiral hermenêutica". Devemos admitir que todos nós tomamos um texto como produto de nossas origens, experiências e entendimentos anteriores. E preciso que testemos essas pressuposições usando como referência a essência das Escrituras como um todo e, particularmente, as evidências da passagem que está sendo examinada.)

Uma questão apresenta-se aqui: "É possível que o significado antigo das palavras pretendido pelos autores do Antigo Testamento dentro de um conjunto de valores, adquira um novo conjunto de valores sem que a intenção original seja distorcida?" Uma questão-chave que divide os intérpretes em diferentes escolas de pensamentos é a forma como o termo "Israel" é usado no texto do Antigo Testamento. Tendo em vista estar claro nas Escrituras que existe apenas um "povo de Deus", alguns chegaram à conclusão de que a palavra "Igreja" pode ser substituída em algumas importantes profecias do Antigo Testamento sobre o futuro de "Israel". A explicação para essa substituição normalmente afirma que ela é um progresso da revelação e da unidade do povo de Deus aqui mencionada. Mas, a não ser que essa identificação possa ser localizada dentro do próprio Antigo Testamento essa interpretação seria um caso de eisegese, ou seja, forçar um sentido (neste caso, adquirido pelo Novo Testamento como um todo) sobre um texto antigo (no Antigo Testamento).

Aqueles que querem defender tal "sentido espiritual" podem acabar lançando mão do que é chamado de analogia da fé – um método que aplica percepções da teologia sistemática na prática da exegese. Alguns, entretanto, argumentam contra tal prática, procurando basear a exegese o máximo possível apenas nas conclusões que são apoiadas pela análise de determinados textos.

Em resposta a essas afirmações, aqueles que defendem o uso da "analogia da fé" argumentam que é apropriado ler nas entrelinhas do Antigo Testamento, tendo em vista que o autor de ambos os Testamentos é o mesmo -Deus – e de que é ele que continua acrescentando às suas próprias revelações no processo de nos dar os dois Testamentos. Trataremos mais desse assunto no capítulo 11 mas, por ora, observemos que tanto a "revelação progressiva" quanto a "analogia da fé" devem ser definidas com mais precisão se desejamos refletir o que a igreja quer dizer com esses termos. A revelação progressiva tem um aspecto orgânico em que o gérmen contido nas primeiras menções de um tema continua ao longo do desenvolvimento desse tema sob a forma da mesma idéia seminal, tomando porém uma forma mais desenvolvida na revelação posterior. A analogia da fé, portanto, não estabelece significados adicionais mas reúne aqueles que já estavam presentes sob uma forma seminal ou rudimentar e passa a expressá-los de maneira mais plena pela exegese mais completa da revelação progressiva.80

CLAREZA

Nosso Senhor nos advertiu que, ao contrário do caso de Moisés, haveria uma certa opacidade ou uma qualidade enigmática ligada ao que os outros profetas tinham a dizer. Isso não ocorre devido a uma falta de precisão da parte desses profetas ou do Revelador divino. Na realidade, tem a ver com coisas tais como a "perspectiva profética", "solidariedade corporativa" e a mistura de aspectos temporais como o "aqui e agora" com as revelações do tipo "já ocorrida" e "ainda não ocorrida", que são encontradas nesse gênero de literatura. A "perspectiva profética" aparece com certa freqüência nos profetas do Antigo Testamento. É um fenômeno que mescla tanto os aspectos próximos quanto distantes da previsão em uma única visão. Assim, Joel prediz que, de acordo com a reação do povo ao chamado ao arrependimento, Deus poderia reverter a devastação trazida pela praga de gafanhotos – a manifestação do Dia do Senhor daquela época – mandando (derramando) chuvas imediatamente (Jl 2.23). Porém, ele "derramaria" também o Espírito Santo de forma que viria a afetar a todos (versículos 28,29). Esse segundo aspecto realizou-se mais tarde – parcialmente, no Pentecoste (At 2.16). Essa profecia ainda espera um cumprimento pleno na segunda vinda de Cristo (Jl 2.30,31).

Eis um dos aspectos da profecia que aumenta a dificuldade de interpretação. Alguns referem-se a esse fenômeno como um resumo profético. A ilustração comum é do pico de duas montanhas distantes que não permitem ao observador definir qual é a distância entre eles. Da mesma forma, os intérpretes que olham ao longo do corredor do tempo tendem a ver acontecimentos que vieram mais tarde ligados ao contexto original. Os profetas do Antigo Testamento costumavam ver a primeira vinda de Cristo mesclando-se com acontecimentos ligados à sua segunda vinda.

Uma outra forma de ilustrar essa mistura dos aspectos próximos da profecia com os distantes é a imagem de um profeta olhando pela mira de um revólver. A mira mais próxima ao olho alinha-se com a mira do outro lado do cano da arma; exatamente da mesma forma, o profeta está consciente do cumprimento próximo e da forma como ele fará parte do cumprimento final. Porém, o intérprete deve cuidar para observar que, mesmo havendo múltiplos cumprimentos da profecia, na mente do profeta eles estão ligados a um único sentido e significado, tendo em vista que os cumprimentos fazem parte da unidade orgânica e do todo ao qual pertence cada acontecimento futuro.

Essa visão da profecia é conhecida como o início da escatologia formal e tem um aspecto de "já cumprida" e de "ainda não cumprida" encontrado em muitas das previsões tanto no Antigo como no Novo Testamento. De acordo com essa visão, muitos anticristos já vieram, alguns estão em cena no momento, mas a aparição do anticristo final acontecerá no fim dos tempos como afirmam várias passagens, em especial 1 João 2.18. Isso compara-se bem como 1 João 4.3: "… este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo."

Da mesma forma, o profeta Elias já havia ministrado mas ainda iria voltar, mas João Batista também tinha vindo "no espírito e poder de Elias" (Lc 1.17). Ainda assim, Deus mais uma vez enviaria "o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor" (Ml 4.5). Jesus, é claro, confirmou essa mesma visão quando pregou em Mateus 11.14 que "se o quereis reconhecer [João Batista], ele mesmo é Elias, que estava para vir". Mais tarde, em Mateus 17.11 Jesus acrescentou: "De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo o quanto quiseram." Diante disso, poderia parecer que Jesus havia respondido ao mesmo tempo sim e não. João Batista foi o cumprimento da promessa de que Elias viria antes do grande Dia do Senhor, porém, ele só veio no "espírito" e "poder" de Elias. Jesus admoestou que, se você for capaz de recebê-lo, ainda haveria uma vinda futura de Elias. Quem seria essa pessoa e de que forma isso aconteceria foram questões não solucionadas por revelações posteriores. Mas fica claro que a profecia possui tanto um aspecto de "já cumprida" como de "ainda não cumprida".

Assim, não é de se admirar que tantos tenham dificuldade em decidir quão clara é a palavra profética, tendo em vista que ela possui um número complexo de cumprimentos, mesmo que esses múltiplos cumprimentos estejam organicamente relacionados e tenham um sentido unificado. A melhor maneira de descrever essa unidade é ilustrada pela linhagem messiânica. Cada filho nascido na linhagem de Abraão e Davi foi um verdadeiro cumprimento, uma antecipação do clímax do cumprimento que viria a se realizar no fim da linhagem. Cada um teve a função de proclamador de Deus e de evidência tangível dentro da História de que a palavra de Deus sobre a primeira e a segunda vinda do Messias era e continua sendo confiável. Ao longo desse tempo, cada filho apontava para Aquele que iria incorporar tudo aquilo que foram os membros da linhagem e muito mais. E aqui entra na discussão o conceito de "solidariedade corporativa", pois cada um dentro da linhagem de Davi era uma parte do Todo (que estava por vir) e dos muitos (na linhagem da "Semente").

UNIDADE ORGÂNICA

Com freqüência, o padrão da revelação bíblica começa apresentando um dos grandes tópicos da profecia de maneira ampla e claramente delineada, deixando por conta de revelações subseqüentes expandir e desenvolver o tema. Essa interdependência das discussões proféticas dentro do texto bíblico torna-se extremamente importante para o intérprete; não podemos supor que cada previsão é uma unidade isolada. Raramente esse é o caso!

As profecias sobre Cristo começam sob forma germinal em Gênesis 3.15. Mas elas continuam, reaparecendo com Noé (9.26,27), Abraão (12.3; 15.2-8; 18.18) e todos os patriarcas ao longo da linhagem de Davi. Da mesma forma, o oráculo de Balaão (Nm 24.17-24) contém o germe profético de muitas profecias que foram feitas mais tarde sobre as mesmas nações que haviam se posicionado contra o povo de Deus (ver exemplos em Am 1 -2; Is 13-23; Jr 46-51 eEz 25-32).

Algumas vezes, o mesmo profeta repetia uma profecia semelhante sobre o mesmo assunto. Dessa forma, o profeta Daniel repetiu a questão do destino dos quatro impérios mundiais oposta à vinda do reino de Deus, sob a liderança do Filho do Homem, em Daniel 7 assim como eleja havia citado no capítulo 2. Mas, Daniel 2 trata dos aspectos externos dessas potências mundiais, enquanto o capítulo 7 as observa do ponto de vista de seus aspectos internos. Assim também, o carneiro de dois chifres e o bode de Daniel 8 são uma repetição do segundo e do terceiro império mundial de Daniel 2 e 7 (conforme a visão que Daniel recebe em 8.20,21).

A compreensão que os profetas possuíam de suas próprias profecias

Uma das respostas mais comuns à pergunta sobre qual era a compreensão que os profetas tinham de suas próprias profecias é a que diz que: ”os profetas escreviam mais do que sabiam." Ao contrário desse aforismo repetido tantas vezes, os profetas compreendiam aquilo que estavam pregando e escrevendo. Isso não quer dizer que sua cognição era completa no que diz respeito a tudo o que registravam ou que sabiam de todas as implicações de seus escritos. O tempo e a maneira exata nos quais Deus iria cumprir suas promessas para o futuro muitas vezes eram tão desconhecidos para esses profetas quanto o são para nós. Não pregavam, porém, palavras que não tinha sentido para eles e que nós, os intérpretes modernos pudemos pela primeira vez compreender à luz do Novo Testamento. Deus não inspirava os autores das Escrituras simplesmente ignorando a capacidade racional deles. Há quatro implicações relacionadas às evidências de que os profetas compreendiam suas mensagens.

Os profetas estavam conscientes dos resultados de suas profecias

Jonas tinha tanta consciência daquilo que Deus requeria para ele que fugiu na direção contrária. Ele não queria que sua pregação fosse uma oportunidade de arrependimento para um povo que tivera um relacionamento tão sangrento e cruel com a sua própria nação (Jn 4.3). Da mesma forma, Micaías sabia muito bem que o rei Acabe iria se opor à sua profecia e, assim, a princípio ele profetizou de forma irônica e confusa (IRs 22.15b). Além disso, ele também sabia o que iria acontecer com os falsos profetas do grupo de Zedequias (versículo 25: eles iriam se esconder "de câmara em câmara") e o que iria ocorrer ao rei Acabe na batalha sobre a qual ele buscava a orientação divina antes de lutar (versículo 28: ele não retornaria em segurança).

OS PROFETAS ESTAVAM CONSCIENTES DAS IMPLICAÇÕES DE SUAS PROFECIAS

Quando o profeta Amos recebeu as visões de que Deus mandaria a praga de gafanhotos e de fogo que consumiria tudo, ele apresentou objeções e suplicou a Deus que voltasse atrás (Am 7.1-6). Como poderia Amos ter orado na função de intercessor, se não fazia idéia do que significavam as duas visões? Jeremias, por outro lado, foi proibido por Deus de interceder pelo povo em oração a favor de Judá, uma vez que Judá tinha ido longe demais (Jr 7.16; 11.14; 14.11). Não era mais uma questão de cumprimento condicional da profecia caso o povo não se arrependesse; a palavra de Deus mencionou o que aconteceria de qualquer maneira. E Jeremias também sabia!

OS PROFETAS RECEBIAM MENSAGENS DE COISAS QUE ERAM HUMANAMENTE IMPOSSÍVEIS DE SABER

Em diversas ocasiões Eliseu advertiu o rei de Israel para que estivesse preparado em um determinado lugar (como, por exemplo, em 2 Reis 6.9). Aliás, Eliseu disse ao rei israelita as "exatas palavras" proferidas pelo rei da Síria em seu quarto (versículo 12b). Tais incidentes mostram claramente o que significava ser um recipiente de revelações. Esses profetas não apenas falavam de segredos do quarto de dormir do inimigo, como também eram transportados por meio de visões para observar o que estava acontecendo a quilômetros de distância. Foi dessa maneira que Ezequiel recebeu a visão daquilo que se passava em Jerusalém enquanto estava na Babilônia, a quase dois mil quilômetros de lá (Ez 8.3b-11.25). Assim, em lugar de estarem confusos, os profetas falavam com precisão, noção de detalhes e compreensão inigualáveis.

OS PROFETAS RELACIONAVAM SUAS PROFECIAS A ACONTECIMENTOS E CIRCUNSTÂNCIAS DE SUA ÉPOCA

Não se poderia esperar que uma predição sobre um futuro distante com pouca relação com o presente fosse de interesse para os ouvintes do profeta ou tivesse qualquer impacto prático ou pessoal na vida do povo, É por essa razão que as profecias estavam enraizadas em determinados acontecimentos contemporâneos. Em alguns casos, Deus primeiro explicava o que ia fazer antes que o profeta passasse a mensagem adiante para o seu público (Ez 14.2-11; Daniel 7.16-28; 12.8-10). O Senhor assegurou a Amos de que não faria "coisa alguma, sem primeiro revelar os seu segredo aos seus servos, os profetas" (Am 3.7). A resposta de Amos foi: "Falou o Senhor, quem não profetizará?" (versículo 8). Havia um imperativo divino sobre a profecia uma vez que Deus havia falado e essa obrigação não era cumprida, enquanto os contemporâneos do profeta não tivessem uma chance de responder a essa mensagem.

Certamente está claro que os profetas escreviam apenas o que lhes era ordenado por Deus. Em cada caso, porém, possuíam uma compreensão do que estavam escrevendo, o que era adequado o suficiente para perceberem as implicações e os resultados daquilo que estavam dizendo.

Princípios para a interpretação profética

Girdlestone adverte que "não há uma estrada perfeita para o estudo científico da profecia". Duas razões importantes para tal conclusão encontram-se no caráter enigmático de grande parte do material profético e na enorme quantidade de material bíblico que existe em praticamente todos os tópicos proféticos.

As seguintes diretrizes são dadas para ajudar o intérprete a navegar nas difíceis águas da profecia. Em muitos casos, quando não existem problemas específicos (por causa da ausência de símbolos, tipos ou linguagem apocalíptica), o intérprete pode geralmente proceder como faria com uma passagem em forma de prosa. Porém, em muito do material profético, uma ou mais das quatro diretrizes a seguir devem ser levadas em consideração.

PROFECIAS INCONDICIONAIS DEVEM SER DISTINGUIDAS DE PROFECIAS CONDICIONAIS E SEQÜENCIAIS

As profecias da Bíblia podem ser classificadas tomando-se como base seu cumprimento: condicional, incondicional ou seqüencial. Esses três tipos aparecem com relativa regularidade e são acompanhados de indicadores no texto que ajudam o leitor ou intérprete a distinguir entre eles.

Profecia incondicional. A lista de profecias incondicionais não é muito longa, mas elas ocupam algumas das posições mais cruciais na história da redenção. Essas promessas são unilaterais no sentido de que não dependem de forma alguma da obediência ou comprometimento humanos para que ocorra seu cumprimento. Estão normalmente ligadas à aliança.

A aliança incondicional em Gênesis 15, na qual Deus de maneira cerimonial passou entre as carcaças dispostas para a cerimônia, é significativa. Em tais cerimônias, era costume cortar os animais sacrificiais ao meio e colocá-los de maneira a formar um corredor ao longo do qual passavam aqueles que estavam fazendo a aliança. Se uma das pessoas que havia passado pelo corredor não cumprisse com sua parte na promessa que havia jurado manter, sua vida teria o mesmo destino daquela dos animais que formavam o corredor (Jr 34.13).

Tendo em mente esse contexto, podemos então compreender por que Gênesis 15.9-21 é tão significativo para a aliança com Abraão. Deus, mostrado como uma tocha de fogo que passa por entre as carcaças dos animais, prometeu sua aliança com Abraão, mas o próprio Abraão não passou pelo corredor.83 Foi isso que tornou a aliança unilateral e, portanto, incondicional da parte de Deus.

Outras alianças incondicionais são: a aliança de Deus em relação às estações do ano (Gn 8.21,22); a promessa de Deus de uma dinastia, reino e domínio para Davi e seus descendentes (2Sm 7.8-16); a promessa de Deus de uma Nova Aliança (Jr 31.31-34); e a promessa de Deus de novos céus e nova terra (Is 65.17-19; 66.22-24). Essas promessas estão relacionadas à nossa salvação por meio da semente de Abraão e Davi e da Nova Aliança, juntamente com o trabalho de Deus de manter as estações e restaurar os novos céus e nova terra.

Profecia condicional. A maior parte das profecias do Antigo Testamento é condicional. Quase todas essas previsões são baseadas em Levítico 26 ou Deuteronômio 28-32. Esses dois textos enumeram as conseqüências específicas que resultam da obediência ou desobediência à palavra de Deus. Os dezesseis profetas literários do Antigo Testamento citam ou fazem alusão a esses dois textos centenas de vezes.

A característica mais marcante dessas profecias é que cada uma tem um "se" ou de um "a menos que", quer ele apareça de forma explícita ou, mais freqüentemente, implícita. Assim, no caso de Jonas, não havia uma promessa explícita de que, se o povo se arrependesse, seria poupado da calamidade que Jonas havia ameaçado que sobreviria em quarenta dias. Entretanto, a suposição de que Jonas sabia que tal cancelamento da punição era possível, caso houvesse um inesperado arrependimento, pode explicar sua profunda relutância em proclamar a declaração divina de julgamento. Se o fim estava próximo, então por que Jonas não havia se deleitado em anunciar o súbito extermínio de seus inimigos? E provável que Jonas soubesse e contasse com o fato de que tudo mudaria em relação à destruição de Nínive, se o povo de repente resolvesse arrepender-se de seus pecados. O mesmo também acontece com todas as outras declarações de bênçãos ou julgamento.

Jeremias 18.7-10 identifica explicitamente o aspecto condicional que muitas vezes aparece implícito, ao colocá-lo na forma de um princípio geral:

No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também, eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou reino, para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mau perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.

Esse princípio é o cerne de todas as profecias condicionais.

Levítico 26 e Deuteronômio 28-32 listam alguns tipos mais comuns de bênçãos e julgamentos que serão recebidos, dependendo da atitude de uma nação ou pessoa. 1 Reis 21.20-24 deixa claro que aquilo que é dito sobre as nações também vale para as pessoas. Quando o rei Acabe arrependeu-se, Deus reverteu suas palavras sombrias e declarou que o julgamento que havia ameaçado não aconteceria nos dias de Acabe, tendo em vista que ele havia se humilhado diante da palavra de Deus.

Profecia seqüencial. Este terceiro tipo de profecia é muito parecido com as profecias do tipo "já cumprida" ou "ainda não cumprida" que discutimos anteriormente. As previsões contidas nessas profecias colocam vários eventos juntos em uma única previsão, mesmo que venham a ser cumpridos numa seqüência e numa série de acontecimentos que podem se estender ao longo de vários séculos.

Diversas profecias dessa categoria já foram usadas por pessoas que não simpatizam com o ponto de vista da Bíblia para provar que muitas das previsões bíblicas nunca se cumpriram, ou pelo menos não da maneira como o texto afirmava que se cumpririam. Normalmente essa lista inclui:

  1. A profecia da destruição de Tiro por Nabucodonosor (Ez 26.7-14; 29.17-20).
  2. A profecia de Elias contra o rei Acabe por ele ter assassinado Nabote (lRs 21.17-29).
  3. A profecia de Isaías sobre a destruição de Damasco (Is 17.1).

A profecia de Ezequiel 26.7-14 pode ser tomada como um caso típico. É preciso que se observe que Ezequiel 26.3 declara que o Senhor "traria muitas nações" contra Tiro. E, de fato, Nabucodonosor, como rei da Babilônia, é especificado no versículo 7 como sendo uma dessas muitas nações. O que a maioria dos intérpretes não observa é que o versículo 12 apresenta uma mudança súbita no pronome, passando da forma singular vista nos versículos 8-11 ("ele") para o plural no versículo 12 ("eles"). Quando juntamos isso com o termo "muitas nações" do versículo 13, fica claro que estamos lidando com uma profecia seqüencial.

A História confirma essa interpretação. Depois de sitiar Tiro durante treze anos (aproximadamente entre 586-573 a.C), Nabucodonosor só foi capaz de empurrar a cidade de Tiro da costa cananéia para uma ilha dois quilômetros para dentro do mar. Até mesmo Ezequiel 29.18, o mesmo contexto em que havia sido feita a previsão sobre o papel de Nabucodonosor na queda de Tiro, reconheceu a frustração do rei por não ser capaz de conquistar Tiro. Centenas de anos mais tarde, o macedônio Alexandre o Grande apareceu e ele também quase se frustrou com sua tentativa de ir contra as forças fenícias de Tiro no meio em que os fenícios sentiam-se em casa – o mar. Entretanto, de acordo com o que havia sido previsto pela profecia de Ezequiel, por volta de 323 a.C, Alexandre o Grande removeu "os muros, as pedras e o pó" (26.12) da velha e abandonada cidade à beira-mar e literalmente os lançou "no meio das águas" a fim de construir uma ligação com a ilha sobre a qual estava a nova cidade de Tiro, que ele acabou tomando com facilidade. Somente esse tipo de tratamento do texto encaixa-se na explicação do termo "muitas nações" e ilustra quais são as implicações de uma profecia seqüencial. Mas observe que o texto contém indicações que permitem o seu entendimento. Nossa interpretação não foi imposta sobre o texto só porque sabíamos qual seria o seu cumprimento.85

TERMOS EMPRESTADOS DA HISTÓRIA PASSADA DE ISRAEL PODEM SER USADOS PARA EXPRESSAR O FUTURO

Poucas características da profecia são mais comuns do que a expressão do futuro em termos que são tomados emprestados do passado histórico de Israel. Tendo em vista que o autor e seu público obviamente não haviam experimentado o futuro, como o profeta poderia falar desse futuro de forma significativa, a menos que usasse analogias para referir-se a ele? Além disso, os métodos de Deus agir apresentam um padrão constante entre si -tomar emprestado do passado para nos ajudar a conceitualizar o futuro é a forma mais lógica e natural de proceder. Alguns exemplos de termos usados para retratar o futuro são:

  1. Criação. Os termos e conceitos de Gênesis 1-2 reaparecem no retrato de novos céus e nova terra em Isaías 65.17 e 66.22.
  2. Paraíso. O Jardim do Éden é usado para ter idéia da futura situação paradisíaca da árvore da vida, com rios fluindo dela conforme aparece em Isaías 51.3; Zacarias 1.17 e Apocalipse 2.7.
  3. O dilúvio. Os dias de Noé e a forma como as pessoas continuavam vivendo do mesmo jeito, apesar de estarem diante de um desastre em Gênesis 6-8, serve de analogia de como serão os dias no tempo da vida do Filho do Homem (Mt 24.37-39). Até mesmo os escarnecedores daquele tempo são usados como modelos do dia escatológico vindouro (2Pe 3.3-7).
  4. A destruição de Sodoma e Gomorra. O que Deus fez com as cinco cidades da planície em Gênesis 18-19 e Deuteronômio 29.23 ele também fará com os perversos num dia vindouro, de acordo com 2 Pedro 2.6; Mateus 10.15; 11.24; Apocalipse 14.10,11 e 19.20.
  5. O êxodo. Assim como Deus tomou seu povo pela mão nos dias do Faraó, ele o fará uma segunda vez quando ele voltar (Is 11.12 e Zc 10.10,11).
  6. A experiência no deserto. A presença do pilar de nuvem e fogo, juntamente com as fontes no deserto servem de indicadores sobre como Deus irá agir no dia em que vier novamente (Is 4.5, 35).
  7. O pecado de Acã e o Vale de Açor. Aquilo que não havia passado de problemas para Israel por causa do pecado de Acã um dia se tornará uma "porta de esperança" (Os 2.15).86

Além dos acontecimentos passados servirem de modelo para expressar o futuro, da mesma forma o texto utiliza personalidades históricas para caracterizar algumas pessoas que estão por vir. Elias, Josué, Zorobabel e Davi, por exemplo, são usados para nos ajudar a criar conceitos sobre como serão as pessoas que no futuro irão tomar o seu lugar (Mt 11.14; Ag 2; Zc 3-4, 6 e 2Sm7, lCr 17; SI 89 e 132).

Uma boa ilustração desse uso do passado para retratar o futuro pode ser encontrada em Ageu 2.21-22:

Fala a Zorobabel, governador de Judá: Farei abalar o céu e a terra; derribarei o trono dos reinos e destruirei a força dos reinos das nações; destruirei o carro e os que andam nele; os cavalos e os seus cavaleiros cairão, um pela espada do outro.

Há pelo menos três alusões históricas que podem ser encontradas nesse texto sobre o que Deus fez no passado e que serve de base para compreender o que ele fará no futuro: (1) assim como ele destruiu Sodoma e Gomorra (Deuteronômio 29.23), assim ele "derribará" o trono dos reinos "naquele dia" (Ag 2.23); (2) assim como "os cavalos e os cavaleiros caíram" no mar Vermelho (Êx 15.1, 5), assim também os inimigos do Messias serão conquistados "naquele dia"; e (3) de maneira semelhante à grande conquista de Gideão, em que cada homem matou o seu próprio irmão pela espada no campo do inimigo (Jz 7.22), assim também será a vitória de Deus "naquele dia". Dessa forma, podemos entender até certo ponto coisas que nenhum de nós ainda experimentou, tendo em vista que esses acontecimentos ainda não ocorreram.

EXPRESSÕES PROFÉTICAS QUE SE REPETEM MARCAM A PRESENÇA DE PASSAGENS PROFÉTICAS

Nos casos em que um intérprete não está certo se uma passagem pode ser entendida como profecia, é de grande ajuda tomar como referência algumas das principais expressões usadas com mais freqüência nas profecias. A maior parte dessas expressões aparece com tanta freqüência que acabou tornando-se um conjunto de termos técnicos para os conceitos que elas representam.87

A lista abaixo contém algumas dessas expressões:

  1. Nos dias vindouros ou nos últimos dias. Essa expressão refere-se ao período de tempo introduzido em conjunto com a série de acontecimentos relacionados à segunda vinda de nosso Senhor. Os primeiros exemplos dessas expressões aparecem na bênção de Jacó sobre seus filhos (Gn 49.1) e nas previsões de Balaão (Nm 24.14). O uso que os profetas fazem do termo refere-se ao tempo da restauração (Is 2.2; Jr 49.39; Mq 4.1; Os 3.5). Em João 6.39, 40, 44, 54 a expressão últimos dias é usada para o tempo de ressurreição dos crentes.
  2. O dia do Senhor. Não se trata aqui de um período de 24 horas, mas de um conjunto de acontecimentos que precedem e incluem o segundo advento de Cristo, durante o qual Deus trará o julgamento e a salvação. Proclamações desse dia podem ser encontradas ao longo de toda a história profética, mas o dia ainda está "próximo" e não foi revelado. A menção clássica desse dia pode ser encontrada em Amos 5.18. É possível que a primeira referência esteja em Êxodo 32.34, "no dia da minha visitação". O termo aparece com freqüência nos profetas (como por exemplo, Jl 1.15; 2.1; 3.14; Is 13.6; Ez 30.3, Sf 1.7, 14). Algumas vezes o termo é usado simplesmente como "naquele dia" (Am 8.3, 9, 13; 9.11).
  3. A vinda do Senhor. O livro de Judas (versículo 14) afirma que desde a era pré-patriarcal, Enoque esperava a nova vinda do Senhor. Esse segundo advento é mencionado como uma epifania, um nascimento, uma forma de manifestação do Senhor. Cristo voltará à terra para punir (Is 26.21), para salvar (Is 40.10), para ir ao seu templo (Ml 3.1) e para visitar Sião (Is 59.20). Ele o fará "subitamente" (Ap 3.11; 22.7, 20) como um relâmpago ou de maneira semelhante a um ladrão (lTs 5.2; 2Pe3.10; Ap3.3; 16.15). Os crentes, portanto, precisam estar preparados e vigiar constantemente (Lc 12.39; 21.34; lTs 5.4).
  4. Restaurar a sorte do meu povo ou voltar do cativeiro. Deus irá libertar o seu povo, Israel, em todas as partes do mundo pela segunda vez, assim como ele os libertou do cativeiro egípcio. Normalmente, esse acontecimento é colocado próximo à sua vinda. Jeremias e Ezequiel usam essa expressão repetidamente (Jr 30.3; Ez 39.25). A mesma expressão também pode ser usada em relação à restauração das nações estrangeiras por Deus, a saber Moabe, Amon e Egito (Jr 48.47; 49.6. Ez 29.14).

  1. O remanescente voltará. Semelhante à expressão anterior, esta também prediz a restauração de Israel à sua terra nativa de Canaã. Ela aparece pela primeira vez em Gênesis 45.7, mas é usada repetida mente nos profetas (Is 6.13; 10.21, 22 e em livros como Joei. Amós, Miquéias, Sofonias, Jeremias e Ezequiel). No Novo Testamento, Paulo usa a idéia em Romanos 9.27 e 11.5. Deus sempre teve um pequeno grupo de fiéis que constituíram o remanescente.
  2. A habitação (ou tabernáculo) de Deus entre os homens. O tema da promessa na Bíblia usa esse conceito como parte de uma expressão composta de uma tríade que se repete quase cinqüenta vezes ao longo de ambos os Testamentos. Deus prometeu que iria habitar no meio de Israel (lRs 8.27), mas no dia final ele viria pessoalmente para estar no meio de seu povo (Ez 37.27, 28). A mesma verdade é ensinada em Zacarias 2.10, 11; 8.3, bem como em Apocalipse 21.3. Assim como o verbo tornou-se carne e veio habitar ("tabernacular") entre nós no primeiro advento (Jo 1.14), assim também Cristo virá mais uma vez para caminhar e falar em nosso meio; só então ele também irá governar e reinar.
  3. O reino de Deus. O cântico de Moisés em Êxodo prometia: "o Senhor reinará por todo o sempre" (Êx 15.18). Deus é reconhecido como rei em 1 Samuel 12.12, mas o conceito do Messias ter um reinado surge de uma promessa feita a Davi em 2 Samuel 7.16, da visão profética do Messias governando como rei sobre toda a terra nos Salmos Reais e da figura encontrada em passagens como Isaías 9.6,7; 24.23; Miquéias 4.7; Obadias 21; Daniel 7.14 que dão esse reino e domínio ao Filho do Homem. Esse tema torna-se um dos pontos principais do ministério do Senhor nos Evangelhos e nas Epístolas de Paulo.

Essas e muitas outras expressões semelhantes têm o papel importante de alertar o intérprete para a presença de material profético. Quase sempre indicam que o cenário para o cumprimento final do texto é o tempo da segunda vinda de nosso Senhor. Fique atento para a presença dessas expressões e observe se o uso das mesmas em cada contexto tem o significado técnico.

ALGUNS TERMOS PROFÉTICOS SÃO RICOS EM ALUSÕES

A linguagem da profecia muitas vezes tem uma história e textura vividas. As ações e descrições que ela usa com freqüência são típicas, simbólicas e cheias de alusões a acontecimentos do passado.

Alguns desses termos podem ajudar o intérprete a adquirir certa perspectiva sobre a literatura bíblica. Os seis termos a seguir estão entre os mais comuns:

  1. Terra. Uma das decisões mais difíceis para o intérprete é se deve traduzir o termo ‘eres como "terra" ou "Terra". Isaías 24 é um bom teste. É provável que a profecia aponte para um contexto mundial, tendo em vista o uso de céu como contraponto no versículo 21. Assim, podemos formular a seguinte regra: quando o termo "Terra" é usado em contraste com céu, ele tem um sentido mais amplo; mas quando está num contexto que faz contraponto com os gentios, ele significa "terra" no sentido de "terra prometida".
  2. Mar. O mar pode referir-se a mais do que um grande corpo de água. Ele pode ser uma multidão de pessoas – como é o caso em Daniel 7.2,3 – da qual erguem-se os quatro impérios mundiais.
  3. Areia na praia e estrelas no céu. Aqui também ambas as formas de pensamento significam um grande número de pessoas e a população incontável de Israel (Gn 22.17; Os 1.10; lRs 4.20; Gn 15.5; Hb 11.12).
  4. Dias de nuvens e escuridão; sangue e fogo e nuvens de fumaça. O sol se tornará em trevas e a lua em sangue. Normalmente, essas frases representam calamidades nacionais e mundiais. Elas são símbolos de grande sofrimento e destruição permitidos por Deus e ligados ao julgamento da humanidade na sua segunda vinda. As origens desses termos estão em cataclismos do passado, tais como o dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra. Ver textos como Joel 2.10, 30-31; 3.15; Isaías 13.10; 34.4; Ezequiel 32.7; 34.12; Mateus 24.29; Apocalipse 6.12.
  5. O norte. Algumas vezes, o norte representa a Assíria, outras vezes a Babilônia ou a Medo-Pérsia. Isso acontece porque todos os conquistadores do leste que foram contra Israel tinham que passar pelo norte, tendo em vista que o deserto não permitia uma incursão direta. Mais tarde, o norte passou a referir-se aos monarcas da Síria e Selêucida, que governaram sobre a Síria e Palestina (Dn 11.6-40). Em Ezequiel 38-39, o rei do norte é identificado com Gogue, Rôs, Meseque e Tubal, identidades que foram consideradas por alguns como sendo potências residentes na antiga União Soviética. Os mesmos temas são encontrados em Ezequiel 38-39 e aparecem novamente em Apocalipse 19.17, 18 e 20.8.
  6. As bodas do Cordeiro. Este termo marca a futura união de Cristo com a Igreja na conclusão da História (Ap 19.7-9; 21.2, 9).

A profecia muitas vezes usa uma grande quantidade de imagens simbólicas, especialmente nos trechos chamados de apocalípticos. A literatura apocalíptica aparece em Daniel 7-12, em todo o livro de Zacarias, em Mateus 24-25, em 2 Tessalonicenses e no livro de Apocalipse. Aqui, a revelação é transmitida por meio de anjos, visões e sonhos, juntamente com outros meios sobrenaturais. Mesclados a essas mensagens estão mares e tigelas de sangue, espíritos com aparência de sapos e outros símbolos. Esses símbolos podem ser classificados em três grupos:

  1. Símbolos explicados no mesmo contexto (como, por exemplo. Dn 2.37-44; 8.20,21; Ap 1.20; 4.5).
  2. Símbolos que são paralelos a imagens do Antigo Testamento (como, por exemplo, a árvore da vida em Gn 2.9; 3.24 e usada emAp2.7; 22.2).
  3. Símbolos que não são explicados pelo contexto nem no Antigo Testamento (como a "pedra branca" de Ap 2.17 ou o "pilar" em Ap 3.12), para os quais dependemos de costumes locais ou do uso do termo dentro do texto.89

O suposto duplo sentido das profecias

Uma das asserções feita com mais freqüência acerca das profecias refere-se ao que alguns chamam de "duplo sentido" da profecia. Normalmente, o termo significa que a passagem profética tem dois sentidos diferentes, cada um separado do outro pelos contextos de ambos os Testamentos. Esse termo não inclui aqueles tipos de profecia em que o cumprimento inicial contém o germe ou as sementes do cumprimento final (como o caso da escatologia recente citada acima com sua profecia do tipo "já cumprida" e "ainda não cumprida").

O apoio a esse conceito de duplo sentido vem do fato de os escritores do Novo Testamento parecerem ter uma certa amplitude na forma como utilizam determinadas passagens do Antigo Testamento. Se os escritores do Novo Testamento puderam fazer uso desses textos mais antigos de uma forma que parece um tanto quanto ou totalmente diferente dos propósitos originais, então, essa deve ser uma indicação divina de que há duplo sentido ou significado, pelo menos nos textos que tratam de profecias.

Esse argumento, entretanto, falha ao não observar que algumas dessas passagens do Novo Testamento estão apenas usando a linguagem conhecida do Antigo Testamento. Outros argumentos não apresentam uma compreensão razoável de qual seria o ponto de concordância entre o Antigo e o Novo Testamento.

Outros afirmam que algumas passagens proféticas devem receber um sentido duplo, pois certas profecias se referem a diferentes acontecimentos, um mais próximo e outro mais distante, ou um temporal e outro espiritual, ou até mesmo eterno. Mas aí é que começa a confusão. Esses exemplos não são propriamente casos de duplo sentido, pois uma profecia pode, de fato, estar relacionada a mais de uma coisa (como por exemplo, algo espiritual e temporal) mas ainda assim, ter um único sentido. Esse é o caso das profecias da escatologia recente.

Entretanto, pode-se levantar fortes objeções contra a idéia de haver um verdadeiro duplo sentido das profecias. Se, por exemplo, as Escrituras podem ter diferentes significados, sendo possível constatar apenas um deles a partir da passagem em um dos Testamentos, não podemos então estar certos do que exatamente aquele texto buscava ensinar. Mais uma vez, essa teoria do duplo sentido corrompe o valor das profecias, pois ou ela complica o significado, de forma a deixar dúvidas sobre o cumprimento das mesmas ou ela evita esse perigo ao tornar as profecias tão generalizadas que fica impossível um cumprimento específico. Outra objeção surge quando se diz que o segundo e diferente sentido é derivado de um novo significado que aparece pela primeira vez no Novo Testamento em relação a esse texto do Antigo Testamento. Mas essa possibilidade dissipa a força de qualquer valor apologético que afirma que o Antigo Testamento antecipou o que aconteceu no Novo Testamento.

A solução para essas questões pode ser encontrada principalmente em duas afirmações: (1) Uma característica marcante da profecia é que ela muitas vezes olha adiante, "não apenas para um único acontecimento ou pessoa, mas para uma série de acontecimentos dentro de uma linha progressiva de desenvolvimento, tendo… sempre o mesmo sentido, mas com diversos desdobramentos e aplicações";90 e (2) na combinação de tipo e profecia, o que pode ser dito do tipo no Antigo Testamento pode ser profeticamente aplicado ao oposto desse tipo no Novo Testamento.

Nessas concessões, pode-se ver que existe um certo grau de verdade nas afirmações acerca do duplo sentido. Muitas profecias têm um desdobramento de aplicações ou cumprimentos como forma de assegurar que a palavra seja mantida viva enquanto aguarda pelo cumprimento final, mas todos esses desdobramentos compartilham de um mesmo sentido. O único ponto que estamos negando aqui é que as profecias possam ter um significado ao serem proferidas de modo natural ou original e outro significado supostamente oculto exatamente nas mesmas palavras quando reaparecem mais tarde relacionada a um assunto diferente.

Portanto, enquanto negamos a presença de "significados múltiplos", "duplo sentido" ou qualquer teoria semelhante, afirmamos a existência de "cumprimentos múltiplos". O mal-entendido surge quando não distinguimos duplo sentido de múltiplos cumprimentos. Dou preferência para o termo usa do por Willis J. Beecher. Ele refere-se aos múltiplos cumprimentos como uma "profecia genérica", a qual ele define como sendo "aquela que diz respeito a acontecimentos que ocorrem numa série de partes, separadas por intervalos e que se expressam em linguagens que podem aplicar-se indiferentemente à parte mais próxima ou à parte mais distante, ou ainda, ao todo – em outras palavras, uma previsão que, ao aplicar-se ao todo de um acontecimento complexo, também aplica-se a algumas de suas partes".91 Essa definição é uma das melhores que temos à nossa disposição para tratar das várias questões aqui levantadas.

A chave para isso tudo é uma idéia derivada de nossa herança antiga que foi novamente redescoberta neste século (da escola de interpretação de Antioquia, com sua visão de theoria, dos séculos 5o a T d.C.).92 A idéia essencial é de que há três aspectos na profecia, e não dois. Essas três partes são:

  1. A palavra de previsão que antecede o acontecimento para o qual ela aponta.
  2. O meio histórico, pelo qual Deus mantém viva a palavra de previsão durante as sucessivas gerações, ao dar demonstrações parciais que estão ligadas à primeira proclamação da palavra com seu cumprimento num clímax final.
  3. O cumprimento final dessa palavra na era do Novo Testamento, no primeiro advento ou nos dias do segundo advento.

Cada cumprimento é, portanto, a realização parcial do que foi prometido e uma continuação da palavra que aponta para um futuro cumprimento no clímax final.

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