Aula de Hermenêutica II: A interpretação das cartas pastorais e Epístolas

TEXTO DA AULA MINISTRADA PELO PR JOSIAS MOURA NO CURSO DE TEOLOGIA SISTEMATICA DO INSTITUTO BÍBLICO BETEL BRASILEIRO NA TURMA DO SÁBADO.

Hermenêutica II: A interpretação das cartas pastorais e Epístolas

Introdução

· Ao estudarmos as Epístolas e cartas gerais encontramos questões que são complexas e importantes.

· Vejamos alguns exemplos destas questões:

o Em 1 Coríntios, por exemplo, vejamos quantas são as dificuldades. "Como a opinião de Paulo (7.25) deve ser tomada como sendo a Palavra de Deus?" perguntarão alguns, especialmente quando pessoalmente não gostam dalgumas das implicações daquela opinião.

o Qual relacionamento há entre a excomunhão do irmão no capítulo 5 e a igreja contemporânea, especialmente porque ele pode simplesmente atravessar a rua para outra igreja?

o Qual é a razão de ser dos capítulos 12-14 para quem está numa igreja local onde os dons carismáticos não são aceitos como válidos para o século XX?

o Como podemos evitar a clara implicação em 11.2-16 de que as mulheres devem ter a cabeça coberta quando oram ou profetizam — ou a clara implicação de que devem orar e profetizar na reunião da comunidade para a adoração?

A distinção entre cartas e Epístolas

· Há uma distinção entre cartas e epístolas que iremos fazer aqui.

· As "cartas verídicas," conforme as chamava, eram não-literárias, ou seja: não foram escritas para o público e a posteridade, mas, sim, visavam apenas a pessoa ou pessoas para quem foram endereçadas.

O próprio Deissmann considerava que todas as Epístolas Paulinas bem como 2 e 3 João eram "cartas verídicas.”

· Já as epístolas eram uma forma literária artística ou uma espécie de literatura destinada para o público em geral. Não havia nestes documentos a descrição de remetentes específicos.

Em I João, por exemplo, não temos remetentes específicos, mas a carta é escrita para um público geral.

As antigas cartas geralmente tinham uma forma

· A forma consiste em seis partes:

1. O nome do escritor (e.g., Paulo)

2. O nome do endereçado (e.g., à igreja de Deus em Corinto)

3. A saudação (e.g., Graça a vós outros e paz da parte de Deus nosso Pai.)

4. Oração: um desejo ou ações de graças (e.g., Sempre dou graças a Deus a vosso respeito…)

5. O corpo

6. A saudação final e despedida (e.g., A graça do Senhor Jesus seja convosco).

· O único elemento variável nesta forma é o número 4, que na maioria das cartas antigas toma a forma de um desejo com oração (quase exatamente como 3 João 2), ou senão, falta totalmente (como em Gálatas, 1 Timóteo, Tito), embora às vezes achemos ações de graças e orações (como freqüentemente nas cartas de Paulo).

Em três das Epístolas do Novo Testamento estas ações de graças se transformam em doxologia (2 Co, Ef, 1 Pe; cf. Ap 1.5-6).

Há algo em comum em todas as cartas

· A despeito desta variedade de tipos, no entanto, há uma coisa que todas as Epístolas têm em comum, e é a coisa mais crucial a ser notada na sua leitura e interpretação: Todas são o que tecnicamente se chama de documentos ocasionais (i.é, surgindo de uma ocasião específica e visando a mesma), e são do SécuIo I.

A teologia nas epistolas e cartas não são tratados teológicos, mas resultam dessa situação.

· Mais uma consideração aqui. A natureza ocasional das Epístolas também quer dizer que não são, em primeiro lugar, tratados teológicos; não são compêndios da teologia de Paulo ou Pedro.

Há teologia subentendida, mas é sempre "teologia de tarefa," teologia que está sendo escrita para a tarefa em vista, ou aplicada a ela.

o Essa é a situação até mesmo de Romanos, que é uma declaração mais plena e sistemática da teologia de Paulo do que se acha noutro lugar. Mas é apenas parte da sua teologia, e neste caso é a teologia que nasceu da sua própria tarefa especial de apóstolo aos gentios. É seu empenho especial em prol dos direitos dos gentios à graça de Deus, e como é relacionado com o problema inteiro da "Lei" que faz a discussão tomar a forma especial que adota em Romanos, e que faz a justificação ser usada como a metáfora primária para a salvação.

o Devemos sempre conservar em mente que as cartas ou epístolas não foram escritas primariamente para fazer uma exposição da teologia cristã. É sempre teologia ao serviço de uma necessidade específica. Notaremos as implicações disto para a hermenêutica no nosso próximo capítulo.

Reconstruindo a situação

· A primeira coisa que devemos procurar fazer com qualquer das Epístolas é formar uma reconstrução bem fundamentada da situação para a qual o autor está falando.

· O que estava acontecendo em Corinto que levou Paulo a escrever 1 Coríntios? Como veio a ficar sabendo da situação deles? Que tipo de relacionamento e contatos anteriores tivera com eles? Que atitudes eles e ele refletem nesta carta? Estes são os tipos de pergunta às quais você deseja respostas. O que você faz, portanto?

Passos para a reconstrução da situação

· Primeiramente, você precisa consultar seu dicionário da Bíblia ou a Introdução do seu comentário a 1 Coríntios para descobrir tanto quanto possível acerca de Corinto e seu povo.

Ao fazer isso, descobriremos sobre Corinto:

o Era uma cidade relativamente jovem, com apenas 94 anos de existência quando Paulo a visitou pela primeira vez.

o Por causa da sua localidade estratégica para o comércio, no entanto, experimentara um ritmo de crescimento incrivelmente rápido.

o Pelos padrões antigos, era cosmopolita, rica, patrona das artes, religiosa (pelo menos vinte e seis templos e santuários), e bem conhecida pela sua sensualidade.

· Em segundo lugar, e agora especialmente para os propósitos de estudo, você precisa desenvolver o hábito de ler a carta inteira do começo ao fim.

Nesta leitura devemos fazer notas. Sugerimos quatro tipos de notas:

1. O que você percebe a respeito dos próprios endereçados; e.g., se são judeus ou gregos, ricos ou escravos, seus problemas, suas atitudes, etc;

2. As atitudes de Paulo;

3. Quaisquer coisas específicas mencionadas quanto à ocasião específica da carta;

4. As divisões naturais e lógicas da carta.

· Para exemplificar o que estamos ensinando sobre a reconstrução da situação, vamos analisar o livro de Judas.

o Procure verificar os seguintes elementos: 1) o autor, 2) o destinatário, 3) a situação que esta acontecendo que motiva a criação do documento, 4) O esboço da carta ou epistola, 5) As palavras e termos difíceis que existem no conteúdo do documento, 6) os argumentos utilizados pelo autor para apoiar a tese defendida na carta, finalmente 7) as aplicações espirituais para nós leitores da atualidade.

Algumas sugestões na análise de cartas e epístolas

· Analise o destinário. Uma carta pode ter um destinatário ou vários destinatários.

o Uma carta destinada à igreja ou a uma coletividade – Ex: Carta aos Romanos e carta aos Efésios;

o Uma carta destinada a um irmão ou a um indivíduo – Ex: Carta a Filemom; Carta a Timóteo;

o Carta destinada a quem tinha o dever de cuidar de uma coletividade – Ex: As cartas a Timóteo e Tito;

· Existem textos que contem princípios eternos que devem ser obedecidos em qualquer cultura ou tempo, e outros textos contem regras de conduta e princípios locais que servem apenas para a cultura bíblica local.

As diferenças na interpretação e aplicação são geradas por aqueles textos, onde alguns entre nós pensam que devem obedecer exatamente àquilo que é declarado e outros entre nós não têm tanta certeza. E isto tem causado falta de uniformidade entre os cristãos de diversos segmentos devocionais.

o Por exemplo.

Em 1 Coríntios 14:34 Paulo diz: “Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina.” Alguns grupos entendem que devemos obedecer a regra literalmente.

Em 1 Coríntios 14:29 ele diz: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem.” Alguns grupos cristãos adotam o princípio sugerido para os dias atuais em suas liturgias, outros crêem que as profecias fizeram parte apenas do passado.

· Procure detectar quais são os problemas e as questões tratadas que motivam a elaboração da carta ou da epistola.

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