AULA 03. OS FUNDAMENTOS DA ESCATOLOGIA VETERO-TESTAMENTÁRIA (CURSO DE TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO–INSTITUTO BÍBLICO BETEL BRASILEIRO)

(Aula do Pr Josias Moura de Menezes, ministrada no curso de Teologia do Instituto Bíblico Betel Brasileiro, na disciplina de Teologia Bíblica do Antigo Testamento)

Texto 03. Os fundamentos da

Escatologia Veterotestamentária

Os fundamentados da escatologia bíblica se encontram nos escritos veterotestametários, e para compreender os acontecimentos do fim faz-se necessário compreender os principais temas escatológicos do Antigo Testamento, a saber, a morte, ressurreição, Filho do Homem, o Reino de Deus, as Setenta Semanas de Daniel e o Dia do Senhor (Yom Yahweh).

I. A morte e a ressurreição no Antigo Testamento

a. A morte, o sheol e a ressurreição

1. A morte

Nas Escrituras do Antigo Testamento, a morte demonstra ser uma realidade incontestável (Nm. 16.29; 2 Sm 14.14; 1 Rs 2.2; Jó 14.1,2; 16.22; 30.23; Sl 49.10; Ec 9.5; Is 51.12).

A raça humana é a imagem e semelhança de Deus, mas é diferente de Deus, pois os homens morrem.

Sabe-se que a morte é o oposto da vida, mas o que é a morte? Como o Antigo Testamento a descreve? E como os personagens bíblicos viam a morte?

A morte é o cessar da respiração, logo, o fim da vida física (Jó 34.14,15).

Segundo Smith, no Antigo Testamento, “a morte é mais que a cessação da vida física, ela pode referir-se a qualquer coisa que ameaça ou enfraquece a vida ou a vitalidade, como o pecado, doença, escuridão, água, ou mar”. Desta forma, a palavra morte é empregada como metáfora, poder oposto à vida e morte física. As pessoas morrem independentemente de idade, raça ou status social, e as causas são as mais diversas (1 Sm 15.33; 31.4,8,9; 2 Sm 2.23; 18.9,14,15).

2. O sheol

Embora o Antigo Testamento não apresente uma explicação sistemática sobre o que acontece com o ser humano após a morte, vários textos deixam claro que após a morte, o ser humano vai para o sheol, o lugar dos mortos.

O significado do termo hebraico sheol é complexo, sua origem etimológica é incerta e é traduzido de diversas formas: túmulo, sepultura, inferno e abismo.

No sheol havia pessoas boas e ruins, ricos e pobres, crianças e adultos, justos e ímpios, logo, a morte nivela todos os homens.

O sheol não era um lugar atrativo, contudo não se tornava um lugar desesperador para o justo, pois transmitia a idéia de que a morte não era o fim absoluto da vida humana (Jó 24.19; Sl 9.17; 16.10;31.17; Is 66.24; Ez 32.23; Ml 4.1-3) e que Deus controlava o sheol (Jó 26.6; Sl 139.8; Am.9.2).

3. A ressurreição

A doutrina da ressurreição dos mortos é fundamentada na fé de que Deus controla a vida e a morte, 1 Sm 2.6. A vida e a morte estão nas mãos de Deus.

Uma fé mais clara na ressurreição é encontrada nos capítulos 24-27 de Isaías, seção conhecida como apocalipse de Isaías. “os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó”, Is 26.19.

Embora alguns intérpretes preferissem entender este texto de forma metafórica, uma referência à restauração de Israel, Is 26.19 aponta a futura ressurreição dos justos para vida eterna.

Outro texto importante sobre a ressurreição no AT se encontra em Dn. 12.2: “… e muitos dos que dormem debaixo da terra, despertarão, este para a vida, aquele para o vitupério, para infâmia eterna”. Este texto descreve claramente a ressurreição eterna dos mortos para o julgamento final. Deus recebe o justo na glória, Sl. 73.23-28; Sl. 16.10.

II. O Filho do Homem no Antigo Testamento

a. O significado da expressão “Filho do Homem” no Antigo Testamento.

A expressão “filho do homem” ocorre cerca de 108 vezes no Antigo Testamento (Nm 23.19; Jó.16.21; Sl 8.4-5; Is 51.12; Ez 13.2; 14.3; 15.2; 16.2; 17.2; Dn 8.17; 10.16).

O profeta Ezequiel é chamado de “filho do homem” 93 vezes. Esta expressão, geralmente, se refere a um ser humano em contraste ao ser divino.

b. O significado de “filho do homem” em Daniel 7

Em Daniel 7.13, a expressão “filho do homem” é utilizada num sentido diferenciado, referindo ao Messias.

Neste texto específico, “filho do homem” é contrastado com 4 grandes monstros que representam 4 reinos humanos, logo, o “filho do homem” é o representante do quinto reino.

Daniel 7.14 descreve o domínio, glória e reino eterno sendo dados ao “filho do homem”. O Filho do homem é apresentado como rei soberano sobre os reinos humanos, subjugando todos os povos e reafirmando a eternidade de seu domínio, glória e reino, pois jamais será destruído. “Os santos receberão o reino e possuirão para todo sempre, de eternidade em eternidade” (Dn. 7.18), assim, os justos reinarão com Cristo.

III. O Reino de Deus no Antigo Testamento

a. O Reino de Deus presente

A expressão reino de Deus não aparece no Antigo Testamento, no entanto, o pensamento de que Deus é o Rei soberano está claramente presente nos escritos veterotestamentários.

Deus é apresentado como Rei de Israel (Dt 33.5; Sl 84.3; 145.1; Is 43.15;) e Rei sobre todos os povos (Sl 29.10; 47.2; 96.10; 97.1; 103.19; Is 6.5; Jr 46.18).

Os oráculos de julgamentos e as execuções de juízo sobre as nações pagãs comprovam que Deus exigia justiça de todos que estavam sob seu governo, e não apenas de Israel.

b. O Reino de Deus escatológico

Além da idéia de um Reino de Deus presente, em que tanto Israel como os povos são julgados, o Antigo Testamento desenvolve também a idéia de um Reino de Deus escatológico.

Daniel 2 descreve um Reino que um dia levantaria e jamais seria destruído. Este reino sucumbirá todos os reinos humanos e permanecerá para todo sempre (v.44-45).

IV. As setenta semanas de Daniel Dn. 9.20-27

a. A discussão em torno das setenta semanas de Daniel

Há duas abordagens básicas quanto ao entendimento das semanas: Há abordagem simbólica e a literal.

Na primeira, os setenta anos de punição (Dn 9.2) foram multiplicados por sete vezes com as maldições da aliança (Lv 26.18,21,24,28).

A abordagem literal se subdivide em três correntes interpretativas:

· A primeira defende o cumprimento desta profecia no período inter-bíblico, mas precisamente, na época de Antíoco IV (175 A.C)

· A segunda defende o cumprimento de todas estas semanas até o primeiro advento do Messias.

· Outros entendem que todos os aspectos desta profecia ainda não foram cumpridos e que seu cumprimento final se dará no segundo advento do Messias.

b. O significado das setenta semanas de Daniel

As setenta semanas de Daniel possuem importância significativa para a escatologia, e é uma das profecias mais discutidas no Antigo Testamento e foco de muitas controvérsias.

As setenta semanas são divididas em três partes:

· Um período de sete semanas (49 anos, Dn 9.25), um segundo período de sessenta e duas semanas (434 anos, Dn 9.25-26), e uma última semana (7 anos, Dn 9.26-27), a mais cruel e temível de todas, que resulta na destruição do perseguidor e libertação final do povo de Deus.

· Não existe acordo entre os interpretes se estes períodos são seqüenciais ou se há intervalos entre eles.

c. O cumprimento das setenta semanas

· O primeiro período de sete semanas pode ser uma referência à conclusão bem sucedida da reconstrução de Jerusalém. A cidade foi reconstruída durante este período, sob oposição “nos tempos angustiosos” conforme predito em Dn. 9.25 e confirmado em Ne 4.18.

· O segundo período de sessenta e duas semanas estende-se desde a conclusão da reconstrução de Jerusalém até o início do ministério de Cristo. Outros acreditam que as sessenta e duas semanas seriam o tempo durante o qual a cidade de Jerusalém seria reconstruída (538 a.C) e quando foi destruída pelos romanos (70 d.C).

· Quanto ao significado da última semana (Dn 9.26-27), não existe acordo entre os estudiosos.

Basicamente, existem duas posições.

o Existem aqueles que defendem que a expressão “depois das sessenta e duas semanas, será morto o ungido” é a descrição da septuagésima semana e uma referência a crucificação de Cristo.

Para estes a expressão “fará firme aliança” significa que Cristo executaria seu ministério público e obra redentiva.

o Outros defendem um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana, e este parêntese abrange toda a era da igreja até o arrebatamento, portanto, segundo esta interpretação, a septuagésima semana terá seu cumprimento no segundo advento do Messias. Portanto, para os defensores desta interpretação, o príncipe descrito em Dn 9.25 é o anticristo que fará aliança com o povo judeu durante o período de sete anos de tribulação.

d. Os resultados das setenta semanas

As setenta semanas teriam os seguintes resultados:

· “…Fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia e para ungir o Santo dos Santos”, Dn 9.24.

· As setenta semanas testemunhariam o final da transgressão (Dn. 9.24) e o término dessa transgressão para alguns intérpretes ocorre no ministério de Cristo, quando Israel culmina sua resistência a Deus ao rejeitar o Messias, o Filho de Deus. Em seguida, os pecados seriam selados, ou seja, reservados para punição, e como castigo, aconteceria a destruição final do templo ocorrido em 70 d.C (Mt 24.2,34).

A expiação dos pecados foi realizada, uma vez por todas, por Cristo na sua morte, e como resultado disto, a justiça eterna foi efetuada. Diante disso, a profecia foi selada, ou seja, cumprida, uma vez que selar um documento pode incluir fechá-lo e autenticá-lo, testificando a veracidade da visão e da profecia. Cristo entrou no Santo dos Santos e consumou toda a obra de redenção.

· Outra proposta de interpretação destes resultados seria entendê-los não como uma realização objetiva mas como uma aplicação subjetiva, logo, teria cumprimento final no segundo advento do Messias.

V. O dia do Senhor no Antigo Testamento

a. O significado do dia do Senhor

O dia do Senhor é uma frase muito comum nos escritos proféticos do Antigo Testamento.

De forma geral, o dia do Senhor era uma referência ao dia em que Deus subjugaria os inimigos e salvaria Israel, o seu povo eleito. Portanto, o dia do Senhor era um dia de juízo, mas também de salvação.

b. O dia do Senhor nos escritos proféticos

Os israelitas acreditavam que era esse o dia em que Deus se ergueria para julgar todos os seus inimigos e salvar Israel de forma espetacular, mas, o profeta Amós utilizou esta frase como símbolo do juízo iminente de Deus sobre Israel, Am 5.18.

Sofonias reconhecia o dia do Senhor como julgamento universal, abrangendo todas as nações, Sf 1.14-18.

Joel e Isaías falam do dia do Senhor como um dia de trevas e escuridão, contudo, o juízo é seguido de uma nova glória e nova luz, Jl 2.2, 28,32; Is 24.21-23.

Em Daniel, o juízo universal de Deus introduz a chegada do reino dos santos do Altíssimo, Dn 7.10-28. O pensamento de um juízo universal das nações introduz a promessa da inauguração do reino perene dos santos do Altíssimo.

c. O dia do Senhor: juízo e salvação, iminente e escatológico

O dia do Senhor é o dia em que todos os povos reconheceriam a supremacia e o senhorio do Deus de Israel sobre o universo.

Seria um dia de juízo sobre as nações inimigas e o triunfo dos remanescentes fiéis israelitas.

O tema “dia do Senhor” possui tanto um cumprimento imediato como escatológico no Antigo Testamento.

Ao mesmo tempo que o profeta anunciava o juízo e salvação iminentes, também prenunciava o grande e terrível dia do Senhor, o juízo final escatológico. “por que o dia do Senhor está prestes a vir sobre todas as nações”… “mas no monte Sião haverá livramento” … “e o reino será o Senhor”. Ob 15,17,21.

O livro de Obadias descreve o juízo de Deus sobre Edom e a salvação de Israel, mas este juízo e salvação são apenas amostras do juízo e salvação plenas que estava por vir.

Considerações finais

Enfim, a morte é uma realidade para a humanidade, contudo, não devemos temê-la. Cristo venceu a morte e a ressurreição de Cristo é a garantia da nossa ressurreição.

Os crentes do Antigo Testamento acreditavam na ressurreição e na vinda do Reino de Deus, e esta expectativa estava relacionada com o advento do Messias, o Filho do homem.

O Reino de Deus foi o tema central da pregação de João Batista, Jesus e dos apóstolos. Cristo anunciou a chegada do Reino de Deus, no entanto, a consumação final é um aspecto vindouro, logo, já desfrutamos das bênçãos do Reino de Deus no presente, mas no porvir será de forma plena.

Referências Bibliográficas

1. KAISER, Walter C. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000.

2. SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento: História, Método e Mensagem. São Paulo : Vida

Nova, 2001

3. ROWLEY, H. H. A Fé em Israel. São Paulo: Teológica, 2003.

4. VAN GRONINGEN, Gerard. Da Criação a consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.

5. WALLACE, Ronald S. A mensagem de Daniel. São Paulo: ABU,1985.

6. BALDWIN, Joyce G. Daniel. São Paulo: 2006.

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